História e Conhecimento
Mercado da Vila Rubim: Uma história que reflete as transformações de Vitória
Curiosidade & Conhecimento
Por Edlamara Conti* / Vitória – ES
Todos os dias, milhares de pessoas chegam a Vitória pelo sul da ilha, atravessam a Avenida Elias Miguel e passam pelo Mercado da Vila Rubim sem perceber o legado de cultura e de tradições que ele representa. Funcionando há 97 anos, a história deste posto varejista e atacadista começa muito antes de sua inauguração; começa com a criação espontânea de um ponto de comércio próximo à foz dos rios Jucu e Santa Maria, em local perto do Centro.
Em uma pequena praia, com precários trapiches para pequenos barcos, na desprestigiada Cidade de Palha, nasce a vocação para a atividade comercial e para a criação do mercado que se tornaria o maior posto de abastecimento da cidade até os anos de 1980, quando surgem os “quilões”, multiplicam-se os supermercados e esta modalidade de comércio não parou mais de se reconfigurar.
Esta história é contada por meio de documentos históricos, livros, projetos arquitetônicos e imagens preservadas no Arquivo Público Municipal de Vitória.
O começo na Cidade de Palha
Até o fim do século XIX, as águas da Baía de Vitória chegavam à Rua Pedro Nolasco e era comum ver crianças brincando na maré. Bem perto, acontecia uma movimentação comercial: pescadores da orla traziam seus pescados e pequenos barcos traziam mercadorias diversas do interior do Estado. O comércio era mais ligado às demandas dos moradores locais e imediações. A região era conhecida como Cidade de Palha, em referência às moradias simples, com casebres cobertos de palha.
Nessa época, a economia capixaba entrava em expansão, baseada principalmente no comércio cafeeiro, e havia necessidade de superar os pequenos cais e trapiches por uma estrutura adequada para embarcações maiores. Tem início, então, o aterro na orla para a construção do Porto de Vitória, em 1906. Nesse mesmo período, a Cidade de Palha ganha o nome de Vila Rubim, em homenagem ao coronel português Francisco Alberto Rubim, que governou a capitania do Espírito Santo, no período de 1812 a 1819.

Antigos cais davam lugar ao novo porto, a economia do Estado crescia e a capital necessitava de novos espaços – e novos aterros – e novos postos de abastecimento. Foi assim, integrado ao reordenamento urbano em torno da área portuária, que foi inaugurado, em 1928, o Mercado da Vila Rubim, ligado ao Mercado Municipal (atual Mercado da Capixaba).
O primeiro prédio
O prédio foi construído na praça onde, atualmente, funciona a feira livre. Possuía dois pavimentos: no primeiro piso, instalaram-se açougues e lojas de hortigranjeiros. No segundo, outros tipos de mercadorias e a administração.
O novo mercado, em estilo eclético, tinha entrada para a atual Rua Pedro Nolasco, enquanto o pavimento superior voltava-se para os fundos (a Avenida Duarte Lemos foi construída no final dos anos 50). Em pouco tempo, além de atender à comunidade local, passou a atender também parte dos moradores e comerciantes de Cariacica e Vila Velha. A Vila Rubim era um ponto de chegada de pequenos barcos que desciam pelos rios Santa Maria e Jucu, entrando na Ilha de Vitória, ou seja, o local de encontro entre os municípios de Vitória, Vila Velha e Cariacica.

Aterro entre a Ilha do Príncipe e a Ilha de Vitória
“Coréia”: a feira ao ar livre
Nos anos de 1950, foi necessário expandir o mercado para o final da Rua Pedro Nolasco, com cerca de 40 “boxes” para venda de peixes, frutas e legumes. Porém, os boxes nada mais eram que tabuleiros de madeira e as mercadorias eram vendidas a céu aberto, características de comércio de feira. Devido à grande movimentação de fregueses, às ofertas aos gritos dos vendedores, à frequência de delitos como furtos e brigas, o local foi apelidado de “Coréia”.
Durante 40 anos, o Mercado da Vila Rubim funcionou nessa configuração comercial e se tornou o maior posto de abastecimento alimentício de Vitória, função que ainda será fortalecida com a desativação do Mercado da Capixaba.
A chegada dos galpões
Desde o início da década de 1960, já estavam em andamento obras de aterro para expansão do Porto de Vitória e da Vila Rubim. Nesse período, também aumentavam as demandas de espaço pelos comerciantes e tornava-se necessário facilitar o acesso para fornecedores dos municípios vizinhos e da Região Serrana. O antigo prédio e a Coreia não tinham capacidade para atender o crescimento do comércio.

Incêndio no Mercado
Assim foi planejada a construção de um novo mercado, construído na forma de três galpões. As antigas barracas ganharam proporções inéditas para a época, com capacidade de reunir em espaços cobertos todos os comerciantes.
Os primeiros galpões foram construídos em 1968, no mesmo ano em que o antigo prédio foi demolido. Em 1969, foi inaugurado o Mercado da Vila Rubim, abrigando, inicialmente 100 boxes, destinados exclusivamente a hortifrutigranjeiros. Em 1970, o Mercado da Capixaba começa a ser desocupado do comércio alimentício e passa a recebendo novos usos.
Era de Ouro
Uma série de aterros foram realizados em Vitória na segunda metade do século XX, para modernizar e ampliar a área habitável da ilha. O aterro da Ilha do Príncipe, em 1970, sobre o canal que banhava a Vila Rubim, possibilitou a expansão do mercado e a reconfiguração da atividade comercial. Já não haveria embarque e desembarque de cargas e passageiros pelo cais ou pela praia. Haveria outra logística, com abertura de ruas e avenidas. Nessa época, foi construída a atual Rodoviária de Vitória.
O Mercado da Vila Rubim ampliou ainda mais seu papel no abastecimento de produtos primários, atendendo toda a Grande Vitória. Sobre o terreno do aterro, em 1976, foram construídos novos pavilhões, e o Mercado passou a desempenhar função de atacadista de hortigranjeiros, ganhando ainda mais importância. Em 1977, com a criação da Centrais de Abastecimento do Espírito Santo (Ceasa) em Cariacica, o Mercado suspendeu esta modalidade de negócio.
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- Prefeitura de Vitória / Comunicação – Conteúdo
- Foto Destaque: Reprodução / Internet
Curiosidade & Conhecimento
Fazenda ‘rara’ do subúrbio do Rio segue abandonada após promessa de revitalização do Governo Federal
Por Victor Serra* | Rio de Janeiro (RJ)
Mais de um ano após ser incluída entre os 14 bens culturais fluminenses contemplados pelo Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), a histórica Fazenda Capão do Bispo, no Cachambi, Zona Norte do Rio, permanece sem qualquer intervenção de restauro. Enquanto as obras não saem do papel, o casarão do fim do século XVIII segue sendo alvo de invasões, vandalismo e furtos. Segundo apuração da reportagem, o programa destinou R$ 440 mil para a elaboração do projeto de restauração do imóvel.
Na época do anúncio, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) informou ao DDR que o imóvel seria transformado
Patrimônio em deterioração

Sem vigilância permanente e praticamente abandonado, o casarão vem sofrendo com a retirada de portas, janelas e outros elementos arquitetônicos, além da ocupação irregular por pessoas em situação de rua. Recentemente, preservacionistas denunciaram a realização de fogueiras no interior da construção, aumentando o risco de incêndio em um imóvel tombado.
Para o ativista Marconi Andrade, da página SOS Patrimônio, a situação é crítica e coloca em risco um dos imóveis históricos mais importantes da cidade. “A Fazenda Capão do Bispo é um patrimônio fundamental para a história do Rio de Janeiro e do Brasil. Foi um dos primeiros locais de cultivo de cana-de-açúcar e, mais tarde, recebeu uma das primeiras mudas de café plantadas no país. Hoje, infelizmente, a casa está completamente aberta, sem segurança e sem manutenção. Portas e janelas estão sendo roubadas, há pessoas morando no imóvel e existe um risco real de incêndio ou até mesmo de desabamento”.

Marconi afirma que grupos ligados à preservação do patrimônio precisaram se mobilizar. “Existe um risco real de incêndio e até de desabamento. Há pessoas utilizando o imóvel de forma irregular, enquanto o patrimônio permanece completamente vulnerável”.
Há cerca de quatro anos, o Ministério Público ajuizou uma ação civil pública pedindo medidas para garantir a recuperação do imóvel. O processo, no entanto, não produziu os efeitos esperados.
Uma fazenda que ajudou a contar a história do Brasil
A Casa do Capão é considerada um símbolo da arquitetura vernacular brasileira, e integra o Projeto Circuito de Fazendas Históricas do Rio de Janeiro. Em 1759, a fazenda foi confiscada dos jesuítas e incorporada à Coroa. Dois anos depois, começou a ser leiloada. Um dos compradores foi o bispo D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas de Castelo Branco, que construiu a casa-grande em um capão — porção de mata isolada sobre um outeiro de cerca de 20 metros de altura — origem do nome da propriedade. Durante séculos, a fazenda manteve atividades agrícolas.
Do ponto de vista arquitetônico, o casarão é uma das raríssimas casas de engenho preservadas na cidade do Rio. Conserva características típicas das edificações rurais setecentistas da Baía de Guanabara, como o pátio central e a varanda sustentada por colunas toscanas de alvenaria. Especialistas costumam comparar sua relevância apenas à da Fazenda do Colubandê, em São Gonçalo.
O imóvel foi tombado pelo Iphan ainda na primeira metade do século XX.
O que diz o Iphan
Procurado pelo DIÁRIO DO RIO, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional informou que aguarda o envio do projeto executivo de restauração pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), responsável pela condução do processo. Segundo o órgão federal, cabe ao Iphan apenas analisar e aprovar o projeto, descentralizar os recursos do Novo PAC e fiscalizar a execução das obras.
Sobre as invasões e o vandalismo registrados no imóvel, o instituto ressaltou que a manutenção dos bens tombados é responsabilidade de seus proprietários. O órgão informou ainda que, após vistoria técnica, encaminhou ofícios à Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (Secec), alertando para o descumprimento de medidas emergenciais e solicitando providências imediatas.
Entre os problemas apontados estão a falta de limpeza do terreno, o acúmulo de lixo e dejetos, a ausência de capina, o avanço da vegetação e a inexistência de vigilância efetiva no local.
- Matéria do Diário do Rio – Conteúdo
- Foto destaque: Reprodução / Iphan
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