Justiça
Caso Araceli: advogados relatam sumiço de documentos em processo histórico
Justiça
Defesa de acusado pela morte de Dantinho afirma que peças não foram encontradas nos autos físicos nem digitais e pede providências ao TJES
Por Patrícia Maciel* | Vitória (ES)
Os advogados que atuam na defesa de William Santos Monzoli, acusado de matar Dante Brito Michelini neste ano, comunicaram ao Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES) que identificaram a ausência de documentos considerados essenciais no processo do Caso Araceli. A defesa pede que o Judiciário localize as peças e, caso isso não seja possível, promova a restauração dos autos.
Segundo o advogado Fernando Colombi da Silva, que atua ao lado de Vanderson Leocádio Américo, a inconsistência foi percebida durante a consulta ao processo histórico, realizada para subsidiar a defesa de William.

A verificação começou na versão digital dos autos e foi posteriormente confirmada na consulta aos volumes físicos arquivados pelo Judiciário capixaba.
“A constatação ocorreu inicialmente durante a análise dos autos digitalizados. Ao examinar o processo, verificamos a ausência de peças processuais fundamentais para a compreensão da tramitação do caso. Diante dessa inconsistência, realizamos consulta aos autos físicos arquivados e confirmamos que tais documentos também não estavam presentes no volume físico disponibilizado para consulta”, afirmou Colombi.
De acordo com a defesa, entre os documentos não localizados estão o recurso de apelação apresentado pelo Ministério Público contra a sentença, as contrarrazões da defesa, o parecer da Procuradoria de Justiça, o acórdão que julgou a apelação, a decisão que extinguiu o processo e a certidão de trânsito em julgado.
Os advogados sustentam que a ausência dessas peças impede a reconstrução completa da tramitação do processo e pode comprometer a análise jurídica dos fatos.
“O impacto é extremamente relevante. Sem essas peças, torna-se impossível reconstruir integralmente a história processual do caso e verificar com precisão todos os atos praticados ao longo da tramitação. Além disso, a ausência de documentos essenciais compromete a segurança jurídica, a transparência processual e o pleno exercício do direito de defesa”, disse o advogado.
Ainda segundo Colombi, a defesa não afirma, neste momento, que houve extravio dos documentos, mas entende que é necessário esgotar as buscas antes de qualquer conclusão.
“Neste momento, a defesa não trabalha com conclusões definitivas. O que existe é a constatação objetiva de que documentos relevantes não foram encontrados nem nos autos digitais nem nos volumes físicos consultados. A primeira hipótese considerada é a de que essas peças possam estar armazenadas em outro local, setor ou acervo ainda não identificado”, explicou.
Defesa pede busca e eventual restauração dos autos
No requerimento encaminhado ao Tribunal, os advogados solicitam que seja realizada uma busca pelos documentos em todos os setores do Poder Judiciário onde eles possam estar arquivados. Caso as peças não sejam encontradas, a defesa pede a adoção do procedimento legal de restauração ou reconstituição dos autos.
“O pedido principal é a localização das peças processuais ausentes, seja nos arquivos físicos, digitais ou em qualquer outro setor do Poder Judiciário onde eventualmente possam estar armazenadas. Caso a localização não seja possível, a defesa requer a adoção dos procedimentos legais de restauração ou reconstituição dos autos”, informou Colombi.
Problemas na digitalização
Além da ausência de documentos, a defesa afirma ter identificado falhas na digitalização do processo. Segundo os advogados, ao comparar os autos físicos com a versão eletrônica, foram encontradas imagens com baixa resolução, cortes e perda de nitidez, dificultando a leitura de parte do conteúdo.
“Verificamos que diversos documentos físicos apresentam boa legibilidade. Entretanto, ao comparar esse material com a versão disponibilizada no processo eletrônico, constatamos que inúmeras imagens digitalizadas possuem baixa resolução, cortes, perda de nitidez e outros problemas que dificultam ou até impedem a correta leitura de seu conteúdo”, afirmou o advogado.
Para a defesa, isso compromete a fidelidade da reprodução digital e dificulta a análise do processo tanto por advogados quanto por pesquisadores interessados no caso.
O que diz o TJES
Em nota, o Tribunal de Justiça do Espírito Santo informou que concedeu ao advogado regularmente habilitado acesso aos dados do processo. Sobre a alegação de ausência de documentos, o tribunal afirmou que, até o momento, “não há qualquer manifestação ou decisão judicial que reconheça a ocorrência dessa situação”.
O TJES acrescentou que qualquer providência será analisada dentro do próprio processo, conforme a legislação vigente e os elementos apresentados pelas partes.
Relação com o caso Dantinho
A consulta ao processo do Caso Araceli foi realizada durante a preparação da defesa de William Santos Monzoli, réu pela morte de Dante Brito Michelini, conhecido como Dantinho. Segundo Colombi, neste momento a prioridade é esclarecer o que ocorreu com os autos históricos.
“A prioridade neste momento é esclarecer o que ocorreu com os autos e garantir a recuperação integral da documentação processual. Somente após a conclusão dessa apuração será possível avaliar todas as consequências jurídicas decorrentes da ausência das peças”, afirmou.
Dante Michelini ganhou notoriedade nacional por ter sido um dos investigados pelo assassinato de Araceli Cabrera Crespo, em 1973. Ele chegou a ser condenado pelo crime, mas acabou absolvido posteriormente.
Em janeiro deste ano, foi morto em Guarapari. William Santos Monzoli confessou o homicídio e atualmente responde à ação penal na Justiça.
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- Folha Vitória – Conteúdo
- Foto destaque: Reprodução
Justiça
Justiça italiana aponta parcialidade de Moraes como motivo para anular extradição de Zambelli
Ex-deputada federal foi condenada pela invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pelo porte de arma de fogo ilegal nas eleições de 2022
A Corte de Cassação, instância máxima do sistema judicial da Itália, apontou uma suposta parcialidade do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), no julgamento da ex-deputada federal Carla Zambelli (PL-SP), para anular a sentença de extradição da ex-parlamentar da Europa para o Brasil.
Em decisão divulgada nesta sexta-feira, 12, a Justiça italiana diz que Moraes atuou sob “dupla veste”, como julgador e de pessoa afetada pelo crime imputado a Zambelli.
“Múltiplos elementos capazes de fazer duvidar da imparcialidade, sob o aspecto objetivo, do Tribunal que proferiu a condenação da recorrente. Isso em razão da dupla veste assumida pelo M. A. D. M. (referência ao ministro) como componente do colegiado julgador e como pessoa danificada por um dos crimes imputados à recorrente”, diz.
Zambelli foi condenada pela invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e pelo porte de arma de fogo ilegal nas eleições de 2022.
A mando da ex-deputada, o hacker Walter Delgatti Neto inseriu um mandado falso de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes no sistema da Justiça. “Expeça-se o mandado de prisão em desfavor de mim mesmo, Alexandre de Moraes. Publique-se, intime-se e faz o L”, dizia o documento falso.
Para a Justiça italiana, Moraes incorreu em um “acúmulo atípico de funções judiciais” ao conduzir parte das investigações e ser o juiz responsável por analisar o mérito do caso.
“Resulta dos autos transmitidos que o M. A. D. M. foi designado como relator do procedimento penal em desfavor de Z. S. O. C. (Zambelli); nessa condição, ele participou da decisão das questões preliminares, inclusive aquela relativa à sua incompatibilidade, bem como da decisão de condenação da recorrente no que tange aos crimes imputados e daquela que determinou a perda imediata do mandato parlamentar de Z. S. O. C ; o mesmo Juiz, ademais, expediu o mandado de prisão em desfavor de Z. S. O. C., redigiu o pedido de extradição e forneceu informações a respeito do Estabelecimento prisional”, diz.
Entenda o caso
A Corte de Cassação anulou no dia 22 de maio, a extradição da ex-deputada federal. Zambelli foi solta após a decisão. Ela publicou um vídeo no perfil de seu marido, Coronel Aginaldo, no Instagram, acompanhada dele e do advogado Pieremilio Sammarco.
“Hoje é dia 22 de maio de 2026, dia de Santa Rita, nome da minha mãe e da pessoa que era minha companheira de cela”, disse Zambelli.
O processo ainda depende de uma decisão do ministro da Justiça da Itália, Carlo Nordio. O ministro tem um prazo de 45 dias para se manifestar a partir do acórdão da nova decisão da Justiça.
Antes da decisão desta sexta-feira, a Justiça italiana vinha proferindo decisões a favor da extradição de Zambelli nos dois processos em que ela foi condenada no STF. A defesa recorreu, então, à Corte de Cassação, que é a última instância da Justiça no país. Zambelli teve seu mandato de parlamentar cassado pela Justiça eleitoral de São Paulo em 2025.
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- Fonte: Estadão – Conteúdo
- Foto destaque: Crédito – Lula Marques / Agência Brasil
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