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Crise no Supremo

Fachin tira relatório contra Mendonça do inquérito das fake news, relatado por Moraes

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Procurador terá cinco dias úteis para dar seu parecer e, depois, ministro terá esse mesmo período para falar

Por Pepita Ortega e Mariana Muniz* | Brasília (DF)

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, decidiu retirar o pedido de abertura de investigação feito pelo ministro Alexandre de Moraes contra André Mendonça do inquérito das fake news.

Em decisão desta sexta-feira, Fachin ainda determinou que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o ministro André Mendonça se manifestem sobre os relatórios tornados públicos pelo ministro Alexandre de Moraes na quinta-feira.

Moraes enviou a Fachin relatórios de inteligência da Polícia Federal (PF) que apontam supostas irregularidades cometidas pelo ministro André Mendonça na condução das investigações Compliance Zero, que apura fraude ao sistema financeiros, a Sem Desconto, sobre desvios ilegais de aposentadorias.

Na decisão, Moraes afirma haver “fortes indícios” da prática de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade pelo colega.

O despacho assinado por Fachin adota rito semelhante ao que ocorreu na noite desta quinta, quando o ministro determinou que Gonet, Mendonça e Moraes se manifestassem sobre o relatório da PF que identificou o relator do inquérito das fake news como interlocutor do ex-banqueiro Daniel Vorcaro em mensagens apreendidas. Nesse caso, os ministros e o PGR terão cinco dias úteis para se manifestar – os pareceres deverão ser apresentados até o final da próxima semana.

Já no caso do relatório que cita Mendonça, primeiro Gonet terá cinco dias úteis para se manifestar e, depois, Mendonça terá mais cinco dias para dar seu parecer.

Se os prazos forem cumpridos à risca, a análise dos casos, por parte de Fachin, ficará mais para o final do mês, próxima ao primeiro turno das eleições.

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Agora, tanto o relatório obtido por Moraes como o documento produzido por ordem de Mendonça passam a tramitar em um único procedimento, vinculado ao gabinete do presidente do STF.

No despacho desta sexta-feira, Fachin afirma ser necessária a adequada instrução para a apreciação da admissibilidade e da regularidade do procedimento adotado pelo ministro Alexandre de Moraes. “As providências ora determinadas destinam-se exclusivamente à instrução do feito, sem antecipação de juízo quanto à admissibilidade, à regularidade do procedimento ou ao mérito das imputações”, diz o texto.

Entenda crise no STF

A crise já sem precedentes no Supremo Tribunal Federal escalou na quinta-feira com um pedido apresentado por Moraes para que Mendonça seja investigado pelo que classificou como “indícios de crimes” cometidos pelo colega de Corte na condução de inquéritos sob sua relatoria, em especial o relativo ao escândalo do Master. O despacho surgiu dois dias após Mendonça retirar o sigilo de um relatório da Polícia Federal que revelou mensagens de Daniel Vorcaro, dono do banco, ao próprio Moraes.

É a primeira vez em que dois integrantes do STF trocam acusações abertamente, inclusive com decisões processuais que miram um ao outro. Diante da turbulência interna que amplia as pressões sobre si, o presidente da Corte, Edson Fachin, abriu um procedimento para tratar do caso e impôs um prazo de cinco dias para que os dois ministros se manifestem.

Em seu despacho, protocolado no âmbito do Inquérito das Fake News, do qual é relator desde 2019, Moraes enviou ao próprio Fachin relatórios de inteligência da PF apontando supostas irregularidades na atuação de Mendonça no escopo das operações Compliance Zero, que apura fraudes ao sistema financeiros, e Sem Desconto, sobre desvios ilegais de aposentadorias.

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Na última terça-feira, uma decisão de Mendonça tornou público um relatório da PF que revelou mensagens de Vorcaro a Moraes. O conteúdo obtido pelos investigadores mostrou, por exemplo, que o banqueiro contatou o ministro dois dias antes de ser preso e chegou a consultá-lo sobre a possibilidade de deixar o país.

Como resposta, Moraes determinou, no mesmo dia, que o diretor-geral da PF encaminhasse relatórios de inteligência com citações a integrantes da Corte.

Em meio ao embate aberto entre membros do Supremo, Fachin abriu, minutos depois do despacho de Moraes, um procedimento para esclarecer pontos levantados pela PGR na condução da investigação envolvendo o caso Master. Ele deu prazo de cinco dias úteis para que Moraes, Mendonça, o procurador Paulo Gonet e Andrei Rodrigues prestem as informações necessárias.

Na decisão, Fachin afirma que a medida é necessária para avaliar o pedido de Mendonça de submeter ao plenário a análise do relatório sobre as conversas entre Moraes e Vorcaro. A PGR, contudo, se manifestou pela nulidade das informações levantadas pela PF por, na visão do órgão, não ter sido seguido o rito previsto na legislação.

Um dos argumentos é que Mendonça não poderia, por iniciativa própria, ter determinado a produção do relatório. Além disso, a Procuradoria afirma que a investigação de um ministro da Corte precisaria de aval prévio do plenário, o que não ocorreu.


  • Matéria de O Globo – Conteúdo
  • Foto destaque: Crédito – Antônio Augusto / STF 
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Moraes se encontrou com Vorcaro um dia antes da prisão do banqueiro, sugerem mensagens

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Mensagens extraídas do celular do banqueiro indicam ao menos dois encontros com o ministro do STF

Os últimos dias de Daniel Vorcaro como dono do Master, antes da liquidação do banco e de sua prisão pela Polícia Federal, em novembro de 2025, foram marcados por convites ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)Alexandre de Moraes, para que ambos se encontrassem e conversassem sobre a situação do banqueiro, então já sob espreita de investigadores da Operação Compliance Zero.

Mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes indicam que o banqueiro se encontrou com o ministro do STF nos dias 14 e 16 de novembro, às vésperas de sua prisão – três dias antes, no primeiro encontro, e um dia antes, no segundo.

O Estadãopediu manifestação do ministro do STF e da defesa de Vorcaro. O espaço está aberto.

No último convite estendido ao ministro antes de ser detido, Vorcaro enviou às 13h40 do dia 16 de novembro, um domingo: “Bom dia, Já estou em voo, vou pousar 14h20 e irei direto praí, tudo bem?”.

Às 22h de 17 de novembro, segunda-feira, o banqueiro foi preso no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, inaugurando a primeira fase da Compliance Zero.

Ele estava prestes a embarcar em um jatinho particular para os Emirados Árabes Unidos. Na percepção de investigadores, Vorcaro ia fugir do País. O banqueiro alegou, na ocasião, que iria negociar a venda do Master a um grupo de investidores.

O banqueiro e o ministro trocavam mensagens em modo de visualização única, por meio de capturas de tela de textos redigidos no aplicativo de notas do celular. Dessa forma, apenas o conteúdo das mensagens enviadas por Vorcaro pôde ser extraído pelos investigadores através do cruzamento de informações armazenadas no celular do banqueiro.

“Tema rápido, só dar uma atualizada”

Em 28 de outubro de 2025, Vorcaro informou Alexandre de Moraes, às 11h04, que estava a caminho de Brasília e que desejava passar na residência do ministro. “Tô indo mais tarde bsb, se conseguir encontrar algum horário. Se não puder hoje mais tarde, eu posso passar sua casa amanha alguma hora que puder”, escreveu o banqueiro.

O encontro, segundo Vorcaro, seria “rápido”. Ele disse que pretendia “dar uma atualizada” ao ministro. Investigadores ouvidos pelo Estadão apontam que os diálogos travados entre Moraes e Daniel Vorcaro giravam em torno de dois temas centrais: o acompanhamento, pelo ministro, do processo de venda do Master a investidores dos Emirados Árabes Unidos e ao grupo Fictor; e a orientação jurídica e o monitoramento processual em temas sigilosos relacionados aos primeiros passos da Operação Compliance Zero.

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Em 30 de outubro, dois dias após o convite a Moraes para uma “rápida” conversa, Vorcaro sondou novamente a possibilidade de um encontro com o ministro. Às 13h26, o banqueiro perguntou: “Fala meu caro tudo bem? Como está aí em Madrid? Semana que vem vai estar no Brasil?”.

Em outubro de 2025, Moraes viajou à capital espanhola como representante do STF no VI Congresso da Conferência Mundial sobre Justiça Constitucional. O evento foi realizado entre os dias 28 e 30 daquele mês.

“Não quero atrapalhar programa família!”

A sete dias de ser preso, Vorcaro teria empreendido, na percepção de investigadores a partir da leitura das mensagens, uma blitz para se reunir com o ministro o maior número de vezes possível.

“Opa tudo bem? Amanha a noite como está? Consegue encontrar em Brasilia?”, escreveu o banqueiro às 17h50 do dia 10 de novembro. No dia seguinte, uma mensagem idêntica, enviada às 20h44 pelo banqueiro: “Opa tudo bem? Amanha a noite como está?”.

No dia 12, às 8h50, um afago ao ministro após a insistência dos convites: “Não quero atrapalhar programa família! Podemos falar outro dia!”. Naquela data, Moraes participou da sessão da Primeira Turma do STF que concluiu a etapa de sustentações orais das defesas dos réus da Ação Penal 2.696, correspondente ao chamado “Núcleo 3″ da trama golpista pós-eleições de 2022.

A família do ministro, citada no diálogo, conhecia o banqueiro Daniel Vorcaro. O escritório de advocacia da mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, firmou um contrato de R$ 131 milhões com o Banco Master. Os dois filhos do ministro, Giuliana e Alexandre, trabalham no escritório Barci de Moraes como advogados.

“Estamos juntos sempre”

A explicação do banqueiro para os sucessivos e insistentes convites ocorreu no dia 12 de novembro, às 9h20, cinco dias antes de sua prisão. “Eu iria Brasilia somente pra te ver e atualizar de tudo. Muita coisa acontecendo”, anotou Vorcaro, emendando que o encontro “pode ser sexta em sp de repente”.

Após resposta do ministro, Vorcaro voltou a escrever, às 9h37 daquele 12 de novembro: “Loucura, faz bem. Podemos, sim! Marcado. Lá em casa ou prefere ficar na sua?”.

Investigadores apontam que a data acertada para o encontro foi 14 de novembro. “Opa tudo bem? Marcado amanha la em casa ou prefere deixar pra semana que vem?”, enviou o banqueiro às 10h40 de 13 de novembro.

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“Vou chegar 14h30 ok! La em casa marcado”, escreveu o banqueiro no dia seguinte, às 10h03.

Após a reunião, Daniel Vorcaro redigiu uma mensagem de gratidão ao ministro do STF, onde mencionou uma “dívida de vida” com Alexandre de Moraes e seus familiares.

“Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros amigos que dependem de nos tem uma divida de vida contigo e com sua família. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada para conseguir concluir, se Deus quiser”, disse Vorcaro às 18h19.

“Passo na sua casa ou prefere na minha”

Como revelou o Estadão, Daniel Vorcaro pediu reiteradamente ao ministro Alexandre de Moraes que interviesse junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, para travar as investigações sobre negócios fraudulentos do Master.

Durante esses pedidos ao ministro, em 15 de novembro, dois dias antes da prisão, Vorcaro pediu mais um encontro com Moraes. “Podemos nos ver amanha rapidamente algum horário”?, enviou às 21h23.

Dez minutos depois, às 21h33, combinou com o ministro: “Vou na parte da tarde então. Veja um horário que não vai te atrapalhar muito. Pode ser bem rápido”.

Às 21h41, o banqueiro acertou o horário do encontro com Moraes. “As 14 então. Passo na sua casa ou prefere na minha?”, escreveu. No dia 16 de novembro, às 13h40, o aviso derradeiro do encontro: “Bom dia, Já estou em voo, vou pousar 14h20 e irei direto praí, tudo bem?”.


  • Matéria do Estadão – Conteúdo
  • Foto destaque: Reprodução / Estadão
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