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Coluna / Opinião

Entrelinhas da Política | junho – 2ª edição

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OPINIÃO

Por Paulo Roberto Borges

Exigência às avessas

Nas pautas mais importantes, aquelas que afetam diretamente a vida da população, o brasileiro costuma ser complacente. Menos quando o assunto é futebol. Nesse campo, é exigente, apaixonado e, muitas vezes, arrogante, cobrando que seu time — e, principalmente, a Seleção Brasileira — vença tudo.

O País vive um momento difícil. Suas instituições, em grande parte, estão desacreditadas perante a sociedade. Muitas autoridades não se respeitam entre si e, por consequência, deixam de contar com o respeito da população. No entanto, quando o tema é futebol, milhões de brasileiros se mobilizam e se digladiam em defesa de uma seleção que já não possui a mesma identidade com o País e cujos jogadores, em muitos casos, sequer são conhecidos pela maioria da população.

Nessa época, porém, viva o oba-oba!

Fato e Ficção

O processo eleitoral oficioso já começou. A legislação que regulamenta as campanhas eleitorais pouco tem servido na prática. Sua aplicabilidade é questionável e, diante do que se vê, parece que pode ser encaminhada para a lata do lixo. Os chamados pré-candidatos já estão em campanha aberta, a começar pelo governo, que inaugura obras com a presença de políticos que deixaram seus cargos, mas não abriram mão do filé.

Enquanto isso, aqueles que pretendem disputar as eleições sem contar com a máquina governamental ficam com a carne de pescoço.

Exemplo

A Câmara Municipal de Vitória tem se destacado no cenário legislativo. Há debates, proposições relevantes e vereadores comprometidos com as demandas da comunidade. O vereador, por ser o agente político mais próximo da população, reafirma a importância do Poder Legislativo municipal. Isso é fato, não conjectura.

Enquanto isso, a Assembleia Legislativa… Bem, essa dispensa comentários.

Panorama Legislativo

Quem acompanha as sessões e a atuação dos parlamentares percebe que a base de apoio do governo municipal de Vitória na Câmara parece desmotivada na defesa da administração. Muitos oposicionistas afirmavam que o então prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos) tinha pouco diálogo com os vereadores. Agora, com a vice-prefeita, Cris Samorini (PP), que deixou a reserva para assumir a chefia do Executivo, surgem sinais de que a postura segue a mesma linha. Supostamente.

Até mesmo aliados começam a reconhecer que a abertura para o diálogo na nova gestão ainda está distante. Nos bastidores, há quem cobre que a prefeita deixe sua marca na administração. Afinal, muitos ainda se perguntam: as digitais de Pazolini continuam presentes nas ações do governo municipal?

É fato, não fake.

O vereador Bruno Malias (PSB), no exercício de suas atribuições parlamentares, tem desempenhado com eficiência uma das principais prerrogativas do Legislativo: fiscalizar. Atendendo a uma demanda de moradores, esteve na Unidade Básica de Saúde (UBS) de Jardim Camburi, em Vitória, para verificar a veracidade das denúncias que lhe foram repassadas.

No local, constatou que a UBS, inaugurada após o suposto término das obras de reforma e ampliação, está longe de ter os serviços concluídos.

As obras continuam, enquanto o atendimento à população ocorre em meio à poeira, ao barulho de marretas, à circulação de funcionários da empresa responsável pela execução da reforma e com o elevador parado, sem previsão de funcionamento. A situação também gera transtornos para os servidores que trabalham na unidade.

Anunciaram a conclusão de uma obra que, na prática, ainda não terminou. É uma situação que lembra o velho ditado popular: “a ida dos que não foram e a volta dos que ficaram”.

Mistério 

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As Bocas de Matiiiiiiildes que circulam pelos corredores da Câmara de Vitória dão conta de que muita coisa estranha aconteceu após o adiamento da eleição para a Mesa Diretora. Dizem, mas não afirmam, que aqueles que já estavam com tudo pronto para a disputa encontraram as portas fechadas e seguem à espera de uma decisão do ministro Gilmar Mendes sobre o caso. Por enquanto, resta apenas resiliência.

Pode isso, Arnaldo?!

O ex-prefeito de São Mateus, Daniel Santana, conhecido pela alcunha de Daniel do Açaí, é pré-candidato a deputado estadual. Acredita-se que disputará a eleição pelo PP. Até aí, nenhuma novidade.

O que chama a atenção é que, após permanecer oito anos à frente da administração municipal sem realizar nenhuma obra de grande impacto ou de relevante benefício para a comunidade, acabou sendo alvo de uma operação da Polícia Federal. Preso juntamente com alguns de seus colaboradores, em um caso que, segundo as investigações, reuniu provas robustas de desvios de recursos públicos, acabou sendo reconduzido ao cargo por decisão da Justiça.

Concluiu os dois mandatos como se fosse um cidadão de reputação ilibada, honesto e quase angelical, sempre com suas longas e desalinhadas madeixas.

Há quem diga que ele realmente disputará as eleições deste ano. E os entendidos — ou desentendidos — da política mateense afirmam que Daniel poderá ocupar uma das 30 cadeiras da Assembleia Legislativa no próximo ano.

Vitimização

Vereadora Valdirene, do PT de São Mateus

A vereadora Professora Valdirene (PT) afirmou, da tribuna da Câmara Municipal de São Mateus, que vem sendo alvo de ataques nas redes sociais por integrar um partido envolvido em diversos escândalos de repercussão nacional. Ela também insinuou que, por ser mulher e preta, foi vítima de preconceito por parte do vereador Branco da Penal (PL), a quem atribuiu a frase “cala a boca” durante uma sessão anterior. Em vídeo divulgado posteriormente, o vereador contestou a versão apresentada pela parlamentar, afirmando que ela não relatou os fatos como ocorreram.

Verdade ou Mentira?

Há situações que só Deus explica, tamanha a insensatez. Um empresário deseja investir em uma cidade e, além do próprio investimento, ainda é obrigado a pagar à municipalidade um valor altíssimo para conseguir se instalar. Trata-se de uma prática absurda, que vai na contramão dos municípios que buscam facilitar a instalação de empresas, gerar empregos, renda e desenvolvimento. Em vez de abrir as portas para o progresso, há lugares em que seus governantes preferem sobretaxar ou até mesmo tirar proveito de quem deseja empreender. Em alguns locais, infelizmente, essa prática já se tornou rotina.

Hipocrisia

No caso da Cazé TV, cujo fundador declarou publicamente ter votado em Lula, chama a atenção o que muitos classificam como uma perseguição promovida pelo governo, pela Globo e por instituições alinhadas. O mesmo governo que autorizou e regulamentou a atuação das bets no Brasil, arrecadando bilhões com o setor, agora vê a Cazé TV ser questionada por manter associação com essas empresas e divulgar suas marcas, enquanto outros veículos continuam fazendo o mesmo. A pergunta que fica é: para uns pode, e para outros não?

Fato ou Conjectura?

Bastou que alguns parlamentares do PL posassem para fotos ao lado do ex-prefeito de Vitória e pré-candidato ao Governo do Estado, Lorenzo Pazolini (Republicanos), durante as festividades de aniversário de Cariacica, para que os paparazzi da política passassem a especular que PL e Republicanos já estariam alinhados para a disputa do próximo pleito.

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Bloco de Notas

Sinceridade – O que de relevante aconteceu no Brasil nesses quase quatro anos do governo Lula? Na avaliação de muitos críticos, muito pouco.

Filósofo – O presidente da Câmara Municipal de Vitória, vereador Anderson Goggi (Republicanos), filosofou ao afirmar: “O lugar das pessoas boas é na política, porque é nela que se promove a transformação da sociedade.”

Pérola do Chefe – O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em mais um episódio de seu conhecido “sincericídio”, afirmou, durante um encontro com estudantes universitários, a seguinte pérola: “O político honesto está dentro de vocês, não está dentro de mim”.

Legal! – A iniciativa da Unidade Básica de Saúde de Jardim Camburi, em Vitória, ao promover ações de prevenção e orientação voltadas aos cuidados com a saúde. O evento, intitulado “Arraiá da Saúde”, aconteceu no dia 20, na quadra da Praça Mário Elias da Silva.

Bola Murcha – Aconteça o que acontecer, foi a pior seleção de futebol que o Brasil já enviou para uma Copa do Mundo. Só ganhamos no sufoco.

Sem Noção – O presidente Lula desdenhou de Neymar, considerado o maior craque do futebol brasileiro da atualidade. No entanto, protagonizou mais uma declaração polêmica ao dizer: “Nossos criminosos são terroristas apenas para o brasileiro, querem apenas ganhar dinheiro…”, quando não queria transformar as organizações criminosas em terroristas. O restante da frase e das bravatas o Brasil já conhece.

Reciclagem – A Associação de Catadores de Jaguaré tornou-se referência no Espírito Santo pelo excelente trabalho desenvolvido no município. Atualmente, dez colaboradores integram a entidade, contribuindo diariamente para a coleta seletiva, a preservação ambiental e a geração de renda.

Criatividade – O governo implantou o “Ócio Produtivo”. É mole?!

Vitimismo – Durante recente conferência sobre os direitos da criança e do adolescente, promovida pela Prefeitura da Serra, a representante da Secretaria Municipal de Educação, Rosângela Pereira dos Santos, reclamou, ao iniciar sua fala, que “na mesa falta gente preta”. O detalhe é que ela própria é preta.

Esperando – Quando Jacques Wagner e Rui Costa serão presos? E o Lulinha, será repatriado? Em tempo: A Conafer, do Frei Chico, voltou a cena do crime.

Aposta – As bets são jogos de azar? Pelo que diz a lei confrontada com a atividade delas é. Portanto, é contravenção.

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Bola Dentro

A atitude do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, ao retirar a Polícia Federal do cumprimento do mandado de busca e apreensão na residência do líder do governo Lula no Senado, Jacques Wagner (PT), conhecido como “Galego”, apelido pelo qual o presidente Lula costuma chamá-lo.

Bola Fora

A 11ª Conferência Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente, realizada nos dias 25 e 26, na Serra. O evento ocorreu praticamente sem divulgação à imprensa. Segundo críticas feitas ao encontro, houve predominância de debates relacionados às pautas de gênero, com enfoque alinhado à esquerda. Diversas entidades participaram, mas os pais estiveram ausentes. Muitas crianças assistiram a palestras consideradas por críticos inadequadas para sua faixa etária. Já o tema oficial da conferência, “Fortalecendo o Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente (SGDCA) e a Democracia Participativa”, segundo essas críticas, acabou ficando em segundo plano.

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Reflexão

“A vida é curta demais para se preocupar com coisas insignificantes ou com pessoas que não te acrescentam”.  

Autor desconhecido, porém, sábio.

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OPINIÃO

Produtividade travada: fatores históricos que explicam o atraso do Brasil

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A baixa produtividade do trabalhador brasileiro tem origem no modelo extrativista da economia que vem do colonialismo e, em muitos aspectos, permanece em vigor, mesmo tendo à frente governos liberais ou progressistas

Por Arthur Gebara Júnior*

A produtividade do trabalhador brasileiro é considerada baixa quando comparada à de países desenvolvidos e de algumas nações em desenvolvimento. O Brasil ocupa a 94ª posição no ranking global de produtividade da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ficando atrás até mesmo de vizinhos latino-americanos com graves dificuldades estruturais.

Na América Latina, por exemplo, o Brasil perde para o Uruguai, o Chile, a Argentina e Cuba – país que lida há décadas com um embargo econômico e fortes limitações sob um governo centralizado. No ranking global de produtividade por hora trabalhada, que avalia 184 países, o Brasil registra uma geração média de riqueza de US$ 21,2 por hora. No contexto regional, o Uruguai lidera com US$ 38, seguido por Chile (US$ 34,4), Argentina (US$ 33,8) e Cuba (US$ 22,6).

O indicador é calculado pela OIT ao dividir o Produto Interno Bruto (PIB) em dólares pelo total de horas trabalhadas da população ativa. Os líderes mundiais em produtividade são a Irlanda (US$ 164,7), Luxemburgo (US$ 159), Noruega (US$ 125,6) e Cingapura (US$ 100,4). Em relação aos Estados Unidos, onde o trabalhador gera US$ 81 por hora, o rendimento brasileiro representa apenas cerca de 26% da riqueza produzida por um americano.

A pesquisa da OIT (com dados do primeiro trimestre de 2026) também aborda a jornada semanal. O brasileiro trabalha, em média, 38,9 horas por semana, índice inferior ao de 97 países, incluindo nações como a China (46,1 horas), Índia (45,7 horas) e o México (42,2 horas). A possível aprovação da jornada 6×1, em andamento no Congresso Nacional, por exemplo, deve aumentar o custo para o empregador e para o consumidor, sem alterar a produtividade.

Mas, afinal, o que trava a produtividade? Por que o país permanece estagnado nesse patamar há décadas? Trata-se de uma questão complexa, na qual fatores históricos e estruturais exercem um papel decisivo.

Para ajudar a entender a baixa performance do trabalhador brasileiro, é possível recorrer ao chamado “mito da preguiça tropical”: ideias racistas e deterministas do século XIX, herdadas do período colonial, tentavam culpar o clima ou a etnia pelo atraso econômico. No entanto, a história econômica desmente esses mitos ao demonstrar a alta intensidade de esforço físico imposta aos trabalhadores sob regimes de exploração e escravidão.

Instituições determinantes

Daron Acemoglu é professor de economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e James A. Robinson, professor de ciência política da Universidade de Chicago. Os dois receberam o Prêmio Nobel de Economia pelo conjunto de suas pesquisas acadêmicas fundamentais sobre como as instituições sociais e políticas afetam a prosperidade dos países, que servem de base para a tese apresentada na obra “Por que as Nações Fracassam”. Este livro destaca como as justificativas geográficas e culturais para decretar a riqueza ou a pobreza de um país não convencem. Os dois especialistas afirmam que o desenho de suas instituições é determinante.

Para uma análise mais precisa, eles classificaram os países em duas categorias. Os de economias inclusivas, que promovem a prosperidade ao garantir direitos de propriedade, incentivar a inovação e distribuir o poder político, com um resultado histórico que gera crescimento sustentável de longo prazo. Direitos amplos, garantia da propriedade privada com segurança jurídica e regulação clara também contribuem para a construção de um ambiente favorável aos investimentos, o que não tem ligação com fatores geográficos e culturais. A educação, a qualificação e o preparo do trabalhador afetam diretamente a sua produtividade.

Já as nações enquadradas como extrativistas concentram a riqueza nas mãos de poucas elites e barram o desenvolvimento. Embora a questão das instituições seja parte das regras do jogo, ela é também determinante para o desenvolvimento de um país. O modelo que os economistas classificam como extrativista não estimula o trabalhador, o que afeta de maneira decisiva a sua produtividade. Ele não tem incentivo para se educar ou investir na sua qualificação técnica, o que o impede de enxergar oportunidades, se preocupar em inovar ou empreender. Além disso, não existe a perspectiva e a garantia de que será recompensado e se apropriará dos resultados do seu esforço, já que o investimento produtivo é muito baixo, com falta de capital físico, o que compromete a produtividade.

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O livro compara o sucesso de países como os Estados Unidos com a economia de nações da América Latina, África e Ásia, explicando como essas características institucionais e políticas são cruciais para o êxito ou o fracasso. No caso da América Latina, o modelo colonial de dominação e exploração gerou instituições extrativistas que concentram renda e travam a produtividade moderna.

Produtividade travada: fatores históricos que explicam o atraso do Brasil

E o Brasil?

O país ainda sofre com as sequelas desse modelo. O latifúndio colonial limitou o acesso à propriedade para a maioria da população, enquanto a escravidão prolongada atrasou a criação de um mercado consumidor livre e qualificado.

Marcel Solimeo, economista-chefe do Instituto de Economia Gastão Vidigal da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), alerta que a educação e, especialmente, a qualificação dos trabalhadores ainda não são efetivas. “Existem cursos de qualificação profissional em várias entidades empresariais, escolas e institutos de formação técnica, mas o problema vem da educação básica, ainda muito deficiente e que continua produzindo um grande número de analfabetos funcionais”, diz.

O economista afirma ainda que “a falta de cultura geral e o pouco interesse de alguns setores do empresariado pela educação e pelo investimento na qualificação do trabalhador agravam o problema.”

Determinismo histórico

Historicamente, a estrutura econômica brasileira priorizou a extração de recursos de baixo valor agregado para exportação. Esses fatores afetam diretamente a produtividade do trabalhador, que recebe menos e tem menor acesso à infraestrutura e à tecnologia de ponta.

Países dominados por dinâmicas extrativistas entram em ciclos de estagnação, pobreza e disputas pelo controle do Estado. Nesse contexto, fica claro que atribuir a baixa produtividade à cultura do povo desvia o foco dos problemas reais e das falhas dos sistemas econômicos, ignorando as profundas diferenças entre modelos inclusivos e exploradores.

Para Ulisses Ruiz de Gamboa, economista do Instituto de Economia Gastão Vidigal da ACSP e professor de História Econômica do Insper, trata-se de um problema crônico: “Ao longo de toda a sua história, o Brasil sofreu com essas instituições extrativistas que, infelizmente, se mantêm vivas, independentemente da linha ideológica dos sucessivos governos. Nem a ascensão de governos declaradamente progressistas foi capaz de promover mudanças“.

O professor acrescenta que, além do problema da baixa qualificação do trabalhador, o Estado muitas vezes protege interesses corporativos específicos em vez de garantir a livre concorrência, criando um ambiente de negócios que penaliza o empreendedorismo em massa, dificulta ganhos de eficiência e desincentiva os ganhos de produtividade do trabalhador.”

O mapa da baixa produtividade

A colonização estabeleceu bases estruturais que moldaram o destino econômico e social de continentes inteiros. A África teve fronteiras desenhadas arbitrariamente pelas potências europeias na Conferência de Berlim, o que fragmentou etnias, alimentou conflitos civis duradouros e estruturou economias baseadas na exportação de commodities primitivas.

A Ásia sofreu com a exploração comercial agressiva e a imposição de tratados desiguais, sendo que a desestruturação de impérios locais abriu caminho para instabilidades políticas prolongadas no século XX.

Na América Latina, o foco na extração de recursos e na monocultura para exportação deixou um legado de extrema desigualdade social, concentração de terras e dependência externa.

A Divergência Coreana

Em “Por que as Nações Fracassam”, os autores mostram o contraste entre as duas Coreias: a do Norte (comunista) e a do Sul (capitalista). O capítulo ilustra como as instituições e os modelos econômicos superam o determinismo geográfico.

A Coreia do Sul adotou o capitalismo de Estado, investiu massivamente em educação de base e promoveu indústrias voltadas à exportação – os chamados chaebols (conglomerados empresariais familiares) -, transformando-se em uma potência tecnológica global.

Por outro lado, a Coreia do Norte seguiu o modelo de economia planejada e fechada do sistema comunista (Juche), priorizando o setor militar e sofrendo com o isolamento internacional, a estagnação econômica e as crises de abastecimento.

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A retomada de Singapura e da China

A ascensão do Sudeste Asiático e da China redefiniu o equilíbrio de poder econômico mundial por meio do pragmatismo estratégico. Singapura transformou-se de uma ilha portuária vulnerável e sem recursos naturais em um centro financeiro global, com um sucesso baseado em forte controle estatal, combate rigoroso à corrupção, abertura ao capital estrangeiro e foco absoluto em logística e educação.

A China recuperou-se de um século de submissão colonial, conflitos e graves convulsões internas. Sob o governo comunista a partir de 1949, passou por grandes dificuldades econômicas decorrentes das tentativas de Mao Tsetung – como o plano “O Grande Salto Adiante”. Foi com as reformas de abertura econômica iniciadas em 1978 que conseguiu combinar o controle político do Partido Comunista com zonas econômicas especiais de livre mercado, tornando-se uma potência militar e industrial e a segunda maior economia do mundo.

Defasagem

No Brasil, a imensa defasagem no ensino básico e técnico, que reduz a capacidade de inovação e a eficiência nas funções, representa um grande desafio. A infraestrutura insuficiente e pouco eficiente, associada ao chamado “Custo Brasil”, constitui outro fator determinante: logísticas precárias e transportes deficientes geram perdas diárias de tempo e recursos. A baixa incorporação de equipamentos modernos nas empresas também deprime o rendimento por hora trabalhada, ao passo que falhas na gestão de processos produtivos e a baixa valorização do capital humano prejudicam o desempenho geral.

Reformas

As reformas estruturais voltadas à produtividade no Brasil estão no radar dos especialistas. É cada vez mais urgente iniciar mudanças profundas capazes de retirar o país da armadilha da baixa produtividade e conduzi-lo a um modelo econômico inclusivo, o que exige a remoção de privilégios corporativistas e a valorização do potencial da força de trabalho. A produtividade do trabalhador brasileiro segue estagnada desde 1950, acumulando avanço de apenas 0,4% em 2025 e desaceleração contínua em 2026. Esse cenário reflete o peso do ecossistema estrutural e da burocracia, distanciando o país da média global de produtividade no trabalho.

Radiografia da Estagnação Produtiva

A eficiência do trabalho no Brasil patina em meio a desajustes setoriais e à reversão de ganhos pontuais do passado. Dados do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, gerido pelo FGV-IBRE, mostram que o salto temporário de produtividade registrado em 2020, devido à pandemia, foi totalmente revertido, retornando à trajetória de queda iniciada em 2017.

Após alta de 2,3% em 2023, impulsionada pela agropecuária, o indicador avançou apenas 0,1% em 2024 e fechou 2025 com alta modesta de 0,4%. O setor de serviços, que concentra a maior parte da mão de obra, mantém ganhos de produtividade próximos a zero, na casa de 0,2% ao ano.

Para a Virada Estrutural

A reversão desse quadro depende de reformas profundas, divididas em quatro frentes prioritárias:

– Consolidação e Simplificação Tributária: Fim do Custo Brasil, redução da burocracia fiscal e estímulo direto ao investimento produtivo em inovação, superando o planejamento tributário defensivo.

– Reforma Educacional e Técnica: Alinhamento curricular voltado para ciências, engenharia e ensino técnico, além de requalificação contínua de adultos frente à automação.

– Modernização Administrativa: Corte de privilégios e supersalários no funcionalismo, atrelando a máquina pública à meritocracia e à entrega de serviços eficientes.

– Abertura Comercial e Infraestrutura: Redução de barreiras tarifárias para elevar a competitividade externa e ampliação de concessões em portos, ferrovias e saneamento por meio de segurança jurídica.

Em um momento em que as atenções se voltam para as eleições de outubro, existe a expectativa de que surja um projeto inovador para a próxima gestão. Nesse sentido, refletir sobre a baixa produtividade do trabalhador brasileiro é fundamental para confrontar os resquícios de um passado extrativista que continua a limitar o desenvolvimento nacional.

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  • Artigo publicado no Diário do Comércio – Conteúdo
  • Foto destaque: Reprodução / Redes Sociais
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