Coluna / Opinião
Entrelinhas da Política | junho 1ª edição
OPINIÃO

Por Paulo Roberto Borges
Política Comunitária
Jardim Camburi é o bairro mais populoso de Vitória e, segundo muitos, até mesmo do Espírito Santo. Se fosse uma cidade, seria a 12ª maior do Estado. Sobre essa segunda afirmação, não sei se há comprovação estatística ou se é apenas entusiasmo dos moradores.
Mas o fato é que o bairro tem dimensões de uma cidade. Possui, inclusive, representação política expressiva, com dois vereadores e um deputado. Em relação aos vereadores, os moradores sempre souberam que um deles era aliado de primeira hora do ex-prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos), enquanto o outro mantinha proximidade com o ex-governador Renato Casagrande (PSB) e com o atual governador, Ricardo Ferraço (MDB).

Maurício Leite (PRD) é o típico vereador de bairro, com atuação fortemente voltada às demandas comunitárias. Já Bruno Malias (PSB) trabalha mais com projetos de alcance amplo, que exigem maior elaboração técnica e planejamento para serem implementados. Seu raio de ação ultrapassa os limites de um ou dois bairros. Isso não o torna melhor nem pior que o colega. Ambos apresentam propostas e iniciativas importantes para a cidade e para a população.
O que surpreendeu quem acompanha a política foi a guinada promovida pelo vereador Maurício Leite. Depois de anos como aliado fiel do ex-prefeito, passou a integrar o campo adversário. No café da manhã era Pazolini; no jantar, já estava ao lado de Ricardo Ferraço e seus aliados. Confesso que custei a acreditar nessa mudança de rumo. Só tive certeza quando participei de eventos com lideranças políticas realizados no Espaço Patrick Ribeiro e, posteriormente, no Colégio Renovação, em Jardim Camburi.
Como jornalista e cidadão curioso, procurei explicações junto a amigos do bairro, mas cada um apresentava uma versão diferente, sem muita consistência. Sabe-se que Maurício Leite tem proximidade com o deputado estadual Deninho Silva, o que pode ter sido um fator de influência nessa mudança de posição, aproximando-o do grupo que faz oposição ao ex-prefeito Pazolini, hoje pré-candidato ao Governo do Estado. Em outras palavras, vestiu a camisa de Ricardo Ferraço. Acredito mais na tese relacionada ao adiamento das eleições para a nova Mesa Diretora da Câmara. São conjecturas que somente o vereador poderá esclarecer.
Em discursos na Câmara Municipal e também no encontro realizado em Jardim Camburi na véspera, Maurício Leite ensaiou uma explicação para sua decisão. Alguns entenderam, outros não. O fato é que agora ele se encontra em um campo político oposto ao de antigos aliados, justamente aqueles com quem, ao longo dos anos, conseguiu viabilizar diversas melhorias para o bairro por meio da administração municipal. Suas reivindicações, em grande parte, eram atendidas.
Cabe destacar que Maurício é reconhecido como um homem de bem, sério, honesto e atuante junto à comunidade. Ainda assim, essa mudança de posicionamento político seguiu um caminho que surpreendeu muitos observadores. As consequências dessa decisão somente o tempo poderá revelar: se representarão um ganho para a política ou um equívoco de avaliação. Por enquanto, a vida segue.
Ele disse, mas há controvérsia…

O pré-candidato a deputado federal Thiago Hoffmann (PSB) afirmou, em discurso durante um encontro político realizado em Jardim Camburi, no último dia 1º, que o município de Vitória carece de gestão e que, nos próximos anos, poderá se tornar uma cidade “afundada” em consequência da administração de Lorenzo Pazolini (Republicanos). Segundo ele, a perda de receitas da capital seria resultado de ações adotadas pelo governo municipal.
Nos bastidores, ouviu-se à boca miúda que o ex-secretário de Estado da Saúde exagerou na análise. Para alguns observadores, Luiz Paulo Velloso Lucas e Lorenzo Pazolini figuram entre os prefeitos mais bem avaliados que Vitória teve nas últimas décadas.
Via-Crúcis
O vereador de São Mateus, Cristiano Balanga (PP), tem cobrado insistentemente do Departamento de Edificações e de Rodovias do Espírito Santo (DER-ES) a construção de uma nova ponte no distrito de Nativo de Barra Nova. A estrutura existente, feita de madeira, já completou 50 anos de uso. Enquanto isso, o parlamentar segue correndo uma verdadeira maratona para que a obra finalmente saia do papel.

Vereador Cristiano Balanga
Segundo ele, a licitação para a construção da nova ponte foi realizada ainda no ano passado, mas, até o momento, nada aconteceu. Recentemente, houve apenas um serviço de manutenção na estrutura atual, insuficiente para garantir a segurança dos veículos leves e pesados que trafegam pelo local. Até ônibus escolares utilizam a ponte diariamente, o que aumenta a preocupação dos moradores. O risco de acidentes é real. Inclusive, já ocorreram incidentes, sem que providências definitivas fossem adotadas para solucionar o problema.
O que se comenta nos bastidores é que o então diretor do DER não teria dado andamento à obra porque, naquele reduto eleitoral, um adversário recebeu mais votos do que ele — e isso com a ajuda do próprio vereador que agora reivindica a construção da ponte.
Enquanto a solução não chega, a velha estrutura continua firme, ou quase. Os mais bem-humorados já apelidaram o local de “Pinguela do Balanga”. E os gozadores de plantão dizem que Matusalém será convidado para cortar a fita inaugural quando a nova ponte finalmente for entregue à população.
Segurança
Santa Leopoldina não é uma cidade onde a violência figure entre os seus principais problemas. Ainda assim, vale recordar episódios ocorridos no passado que causaram grande impacto na sociedade local, quando a ação de um grupo criminoso espalhou medo e insegurança entre os moradores.

Darley Espíndula
Atento à questão da segurança pública, o vereador e presidente da Câmara, Darley Espíndula (PP), apresentou uma indicação para que a Prefeitura estude a criação da Guarda Municipal. No entanto, o prefeito Fernando Rocha enfrenta limitações orçamentárias que podem dificultar a implementação da proposta.
Embora reconheça a importância de uma Guarda Municipal para a proteção do patrimônio público e como força auxiliar das polícias Militar e Civil, a realidade financeira do município impõe obstáculos à adoção dessa medida no curto e médio prazo. Assim, Santa Leopoldina ainda deverá aguardar para contar com uma Guarda Municipal, a exemplo do que já ocorre em diversos outros municípios capixabas.
_____________
Bloco de Notas

Atuante – O vereador de Vitória, Armandinho Fontoura (PL) vem se destacando como um dos mais incisivos paramentares do Legislativo da capital. É claro em suas colocações e age com coragem ao abordar temas polêmicos.
Notícia oficiosa – Os vereadores Anderson Goggi (Republicanos) e Maurício Leite (PRD) não devem frequentar a mesma mesa. Aconteceu, segundo notícia sem confirmação em papel, que ambos se desentenderam no estacionamento da Câmara. E não foi por causa de vaga e sim, supostamente, por questão de posicionamento político.
Temperatura – Alguns vereadores disseram, no escurinho do cinema, que a atual prefeita de Vitória, Cris Samorini (PP), ainda não implementou sua marca, seu estilo. Por enquanto, segundo se ouviu, não abriu o diálogo com aliados. “É ainda água morna, nem quente nem fria”, diagnosticaram.
Ele é o cara? – As eleições para a presidência da Mesa Diretora da Câmara de Vitória estão ainda distantes. Isso não parece mudar a preferência da maioria pelo nome do vereador Dalton Neves (SD) para ocupar a cadeira onde hoje está sentado do presidente Anderson Goggi.
Susto – Um certo vereador afirmou da tribuna da Câmara Municipal de um município capixaba que gosta de homem; gosta de homens, de mulheres e de seres humanos. Assustados num primeiro momento, seus colegas respiraram aliviados e manifestaram solidariedade.
Denúncia – A administração do prefeito de São Mateus foi denunciada por supostas irregularidades em uma licitação da Secretaria de Educação. Pelo que se sabe, o caso pode ter sido resultado de um erro técnico-administrativo, diferentemente da gestão anterior, que, segundo seus críticos, agia com plena convicção ao saquear o município.
“Quase” um fato – A vereadora Karla Coser, do PT de Vitória, é apontada, nas rodas de conversa e apostas da política da capital, como uma provável deputada estadual a partir de 2027. Por enquanto, é apenas uma pré-candidatura no imaginário político, mas pode muito bem se transformar em uma realidade no futuro.
Começou – Com a aproximação da Copa do Mundo, a Rede Globo já deu início ao tradicional clima de euforia em torno da seleção brasileira, reforçando a ideia de uma hegemonia futebolística que, na visão de muitos, já não corresponde à realidade. A convocação de Neymar, considerado por seus admiradores o principal talento da equipe, desagradou setores que costumam analisar tudo sob a ótica ideológica. Para esses críticos, o posicionamento político do jogador pesa tanto quanto seu desempenho em campo.
Desafinou no Hino – Alcione e Belo protagonizaram um momento bastante criticado ao interpretarem o Hino Nacional no Maracanã. A apresentação gerou comentários negativos e dividiu opiniões nas redes sociais. Para muitos espectadores, a execução ficou aquém da importância e da solenidade que o símbolo nacional exige. Como de costume, o episódio alimentou debates que ultrapassaram o campo artístico e alcançaram questões de patriotismo e identidade nacional.
Desconectada – A vereadora de São Mateus, Professora Valdirene (PT), fez, na última segunda-feira (8), um pronunciamento na tribuna em tom de militância partidária. Em sua fala, apresentou uma série de argumentos sem sustentação consistente, reproduzindo narrativas que, na avaliação de seus críticos, podem contribuir para a desinformação de parte da população, nem sempre munida de informações completas sobre os fatos. O tema abordado foi o encontro entre o senador Flávio Bolsonaro e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Papo furado – Lula, mais uma vez, afirmou que os Estados Unidos pretendem atacar o Pix, numa declaração que, segundo seus críticos, tem o objetivo de confundir a população e disseminar desinformação. A narrativa sugere que a ferramenta, que ganhou impulso durante o governo Bolsonaro, estaria sob ameaça. Esse discurso é reproduzido por setores do PT como se fosse um fato consumado. Para os opositores, trata-se apenas de uma cortina de fumaça para desviar a atenção de declarações recentes do presidente sobre criminosos que, segundo ele, não podem ser classificados como terroristas.
Presentes – Em ano eleitoral, políticos têm despejado emendas parlamentares pelos municípios afora, numa movimentação que costuma se intensificar à medida que o calendário das eleições se aproxima.
Dificuldade – A escolha do candidato a vice na chapa governista encabeçada por Ricardo Ferraço (MDB) continua cercada de mistério. Vários nomes já circularam nos bastidores, mas, até o momento, nenhum foi oficialmente confirmado para compor a chapa. Até o nome do vereador Camilo Neves (PP) foi citado.
Au Au – Baiano do Salão (Podemos), vereador de Vitória, quer saber por onde andam as ONGs de proteção animal, já que há um grande número de cães abandonados pelas ruas da cidade. Segundo ele, os animais estão abandonados não apenas por seus donos, mas também pelas ONGs que deveriam atuar em sua proteção e cuidado.
Visão da esquerda – Ana Paula Rocha (Psol), afirmou que nesse governo, o Brasil recuperou a Bandeira Nacional que estava nas mãos de golpistas. De quem ela está falando?
Podre de Rico – Elon Musk se tornou oficialmente o primeiro trilionário do mundo, nesta sexta-feira (12/6). O marco foi alcançado após a estreia da SpaceX na bolsa de Nova York, em uma oferta pública inicial (IPO) que já é apontada como a maior da história da Nasdaq, uma das principais bolsas dos Estados Unidos. US$ 1 milhão por minuto.
Para não esquecer – Uma das maiores vergonhas do jornalismo brasileiro foi a comemoração de “jornalistas” da Globo quando Lula “venceu” as eleições. E com relação a partidos, o PT que vende “democracia” pediu a censura da Gazeta do Povo, Jovem Pan e a Revista Oeste. Fatos e não conjecturas.
_____________
Bola Dentro
Flávio Bolsonaro (PL) no encontro com o presidente Donald Trump e autoridades americanas. Mostrou um prestígio que o presidente do Brasil parece não ter com o “Tio Sam”.
Bola Fora
Presidente Lula (PT) que se irritou com a decisão do governo americano de classificar “os nossos criminosos como terroristas”. Além de desejar o enforcamento do seu adversário, do jeito que morreu Tiradentes.
________
Reflexão
“Vencedores não são pessoas que nunca falham, são pessoas que nunca desistem”.
Autor desconhecido
OPINIÃO
Produtividade travada: fatores históricos que explicam o atraso do Brasil
A baixa produtividade do trabalhador brasileiro tem origem no modelo extrativista da economia que vem do colonialismo e, em muitos aspectos, permanece em vigor, mesmo tendo à frente governos liberais ou progressistas
Por Arthur Gebara Júnior*
A produtividade do trabalhador brasileiro é considerada baixa quando comparada à de países desenvolvidos e de algumas nações em desenvolvimento. O Brasil ocupa a 94ª posição no ranking global de produtividade da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ficando atrás até mesmo de vizinhos latino-americanos com graves dificuldades estruturais.
Na América Latina, por exemplo, o Brasil perde para o Uruguai, o Chile, a Argentina e Cuba – país que lida há décadas com um embargo econômico e fortes limitações sob um governo centralizado. No ranking global de produtividade por hora trabalhada, que avalia 184 países, o Brasil registra uma geração média de riqueza de US$ 21,2 por hora. No contexto regional, o Uruguai lidera com US$ 38, seguido por Chile (US$ 34,4), Argentina (US$ 33,8) e Cuba (US$ 22,6).
O indicador é calculado pela OIT ao dividir o Produto Interno Bruto (PIB) em dólares pelo total de horas trabalhadas da população ativa. Os líderes mundiais em produtividade são a Irlanda (US$ 164,7), Luxemburgo (US$ 159), Noruega (US$ 125,6) e Cingapura (US$ 100,4). Em relação aos Estados Unidos, onde o trabalhador gera US$ 81 por hora, o rendimento brasileiro representa apenas cerca de 26% da riqueza produzida por um americano.
A pesquisa da OIT (com dados do primeiro trimestre de 2026) também aborda a jornada semanal. O brasileiro trabalha, em média, 38,9 horas por semana, índice inferior ao de 97 países, incluindo nações como a China (46,1 horas), Índia (45,7 horas) e o México (42,2 horas). A possível aprovação da jornada 6×1, em andamento no Congresso Nacional, por exemplo, deve aumentar o custo para o empregador e para o consumidor, sem alterar a produtividade.
Mas, afinal, o que trava a produtividade? Por que o país permanece estagnado nesse patamar há décadas? Trata-se de uma questão complexa, na qual fatores históricos e estruturais exercem um papel decisivo.
Para ajudar a entender a baixa performance do trabalhador brasileiro, é possível recorrer ao chamado “mito da preguiça tropical”: ideias racistas e deterministas do século XIX, herdadas do período colonial, tentavam culpar o clima ou a etnia pelo atraso econômico. No entanto, a história econômica desmente esses mitos ao demonstrar a alta intensidade de esforço físico imposta aos trabalhadores sob regimes de exploração e escravidão.
Instituições determinantes
Daron Acemoglu é professor de economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e James A. Robinson, professor de ciência política da Universidade de Chicago. Os dois receberam o Prêmio Nobel de Economia pelo conjunto de suas pesquisas acadêmicas fundamentais sobre como as instituições sociais e políticas afetam a prosperidade dos países, que servem de base para a tese apresentada na obra “Por que as Nações Fracassam”. Este livro destaca como as justificativas geográficas e culturais para decretar a riqueza ou a pobreza de um país não convencem. Os dois especialistas afirmam que o desenho de suas instituições é determinante.
Para uma análise mais precisa, eles classificaram os países em duas categorias. Os de economias inclusivas, que promovem a prosperidade ao garantir direitos de propriedade, incentivar a inovação e distribuir o poder político, com um resultado histórico que gera crescimento sustentável de longo prazo. Direitos amplos, garantia da propriedade privada com segurança jurídica e regulação clara também contribuem para a construção de um ambiente favorável aos investimentos, o que não tem ligação com fatores geográficos e culturais. A educação, a qualificação e o preparo do trabalhador afetam diretamente a sua produtividade.
Já as nações enquadradas como extrativistas concentram a riqueza nas mãos de poucas elites e barram o desenvolvimento. Embora a questão das instituições seja parte das regras do jogo, ela é também determinante para o desenvolvimento de um país. O modelo que os economistas classificam como extrativista não estimula o trabalhador, o que afeta de maneira decisiva a sua produtividade. Ele não tem incentivo para se educar ou investir na sua qualificação técnica, o que o impede de enxergar oportunidades, se preocupar em inovar ou empreender. Além disso, não existe a perspectiva e a garantia de que será recompensado e se apropriará dos resultados do seu esforço, já que o investimento produtivo é muito baixo, com falta de capital físico, o que compromete a produtividade.
O livro compara o sucesso de países como os Estados Unidos com a economia de nações da América Latina, África e Ásia, explicando como essas características institucionais e políticas são cruciais para o êxito ou o fracasso. No caso da América Latina, o modelo colonial de dominação e exploração gerou instituições extrativistas que concentram renda e travam a produtividade moderna.

E o Brasil?
O país ainda sofre com as sequelas desse modelo. O latifúndio colonial limitou o acesso à propriedade para a maioria da população, enquanto a escravidão prolongada atrasou a criação de um mercado consumidor livre e qualificado.
Marcel Solimeo, economista-chefe do Instituto de Economia Gastão Vidigal da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), alerta que a educação e, especialmente, a qualificação dos trabalhadores ainda não são efetivas. “Existem cursos de qualificação profissional em várias entidades empresariais, escolas e institutos de formação técnica, mas o problema vem da educação básica, ainda muito deficiente e que continua produzindo um grande número de analfabetos funcionais”, diz.
O economista afirma ainda que “a falta de cultura geral e o pouco interesse de alguns setores do empresariado pela educação e pelo investimento na qualificação do trabalhador agravam o problema.”
Determinismo histórico
Historicamente, a estrutura econômica brasileira priorizou a extração de recursos de baixo valor agregado para exportação. Esses fatores afetam diretamente a produtividade do trabalhador, que recebe menos e tem menor acesso à infraestrutura e à tecnologia de ponta.
Países dominados por dinâmicas extrativistas entram em ciclos de estagnação, pobreza e disputas pelo controle do Estado. Nesse contexto, fica claro que atribuir a baixa produtividade à cultura do povo desvia o foco dos problemas reais e das falhas dos sistemas econômicos, ignorando as profundas diferenças entre modelos inclusivos e exploradores.
Para Ulisses Ruiz de Gamboa, economista do Instituto de Economia Gastão Vidigal da ACSP e professor de História Econômica do Insper, trata-se de um problema crônico: “Ao longo de toda a sua história, o Brasil sofreu com essas instituições extrativistas que, infelizmente, se mantêm vivas, independentemente da linha ideológica dos sucessivos governos. Nem a ascensão de governos declaradamente progressistas foi capaz de promover mudanças“.
O professor acrescenta que, além do problema da baixa qualificação do trabalhador, o Estado muitas vezes protege interesses corporativos específicos em vez de garantir a livre concorrência, criando um ambiente de negócios que penaliza o empreendedorismo em massa, dificulta ganhos de eficiência e desincentiva os ganhos de produtividade do trabalhador.”
O mapa da baixa produtividade
A colonização estabeleceu bases estruturais que moldaram o destino econômico e social de continentes inteiros. A África teve fronteiras desenhadas arbitrariamente pelas potências europeias na Conferência de Berlim, o que fragmentou etnias, alimentou conflitos civis duradouros e estruturou economias baseadas na exportação de commodities primitivas.
A Ásia sofreu com a exploração comercial agressiva e a imposição de tratados desiguais, sendo que a desestruturação de impérios locais abriu caminho para instabilidades políticas prolongadas no século XX.
Na América Latina, o foco na extração de recursos e na monocultura para exportação deixou um legado de extrema desigualdade social, concentração de terras e dependência externa.
A Divergência Coreana
Em “Por que as Nações Fracassam”, os autores mostram o contraste entre as duas Coreias: a do Norte (comunista) e a do Sul (capitalista). O capítulo ilustra como as instituições e os modelos econômicos superam o determinismo geográfico.
A Coreia do Sul adotou o capitalismo de Estado, investiu massivamente em educação de base e promoveu indústrias voltadas à exportação – os chamados chaebols (conglomerados empresariais familiares) -, transformando-se em uma potência tecnológica global.
Por outro lado, a Coreia do Norte seguiu o modelo de economia planejada e fechada do sistema comunista (Juche), priorizando o setor militar e sofrendo com o isolamento internacional, a estagnação econômica e as crises de abastecimento.
A retomada de Singapura e da China
A ascensão do Sudeste Asiático e da China redefiniu o equilíbrio de poder econômico mundial por meio do pragmatismo estratégico. Singapura transformou-se de uma ilha portuária vulnerável e sem recursos naturais em um centro financeiro global, com um sucesso baseado em forte controle estatal, combate rigoroso à corrupção, abertura ao capital estrangeiro e foco absoluto em logística e educação.
A China recuperou-se de um século de submissão colonial, conflitos e graves convulsões internas. Sob o governo comunista a partir de 1949, passou por grandes dificuldades econômicas decorrentes das tentativas de Mao Tsetung – como o plano “O Grande Salto Adiante”. Foi com as reformas de abertura econômica iniciadas em 1978 que conseguiu combinar o controle político do Partido Comunista com zonas econômicas especiais de livre mercado, tornando-se uma potência militar e industrial e a segunda maior economia do mundo.
Defasagem
No Brasil, a imensa defasagem no ensino básico e técnico, que reduz a capacidade de inovação e a eficiência nas funções, representa um grande desafio. A infraestrutura insuficiente e pouco eficiente, associada ao chamado “Custo Brasil”, constitui outro fator determinante: logísticas precárias e transportes deficientes geram perdas diárias de tempo e recursos. A baixa incorporação de equipamentos modernos nas empresas também deprime o rendimento por hora trabalhada, ao passo que falhas na gestão de processos produtivos e a baixa valorização do capital humano prejudicam o desempenho geral.
Reformas
As reformas estruturais voltadas à produtividade no Brasil estão no radar dos especialistas. É cada vez mais urgente iniciar mudanças profundas capazes de retirar o país da armadilha da baixa produtividade e conduzi-lo a um modelo econômico inclusivo, o que exige a remoção de privilégios corporativistas e a valorização do potencial da força de trabalho. A produtividade do trabalhador brasileiro segue estagnada desde 1950, acumulando avanço de apenas 0,4% em 2025 e desaceleração contínua em 2026. Esse cenário reflete o peso do ecossistema estrutural e da burocracia, distanciando o país da média global de produtividade no trabalho.
Radiografia da Estagnação Produtiva
A eficiência do trabalho no Brasil patina em meio a desajustes setoriais e à reversão de ganhos pontuais do passado. Dados do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, gerido pelo FGV-IBRE, mostram que o salto temporário de produtividade registrado em 2020, devido à pandemia, foi totalmente revertido, retornando à trajetória de queda iniciada em 2017.
Após alta de 2,3% em 2023, impulsionada pela agropecuária, o indicador avançou apenas 0,1% em 2024 e fechou 2025 com alta modesta de 0,4%. O setor de serviços, que concentra a maior parte da mão de obra, mantém ganhos de produtividade próximos a zero, na casa de 0,2% ao ano.
Para a Virada Estrutural
A reversão desse quadro depende de reformas profundas, divididas em quatro frentes prioritárias:
– Consolidação e Simplificação Tributária: Fim do Custo Brasil, redução da burocracia fiscal e estímulo direto ao investimento produtivo em inovação, superando o planejamento tributário defensivo.
– Reforma Educacional e Técnica: Alinhamento curricular voltado para ciências, engenharia e ensino técnico, além de requalificação contínua de adultos frente à automação.
– Modernização Administrativa: Corte de privilégios e supersalários no funcionalismo, atrelando a máquina pública à meritocracia e à entrega de serviços eficientes.
– Abertura Comercial e Infraestrutura: Redução de barreiras tarifárias para elevar a competitividade externa e ampliação de concessões em portos, ferrovias e saneamento por meio de segurança jurídica.
Em um momento em que as atenções se voltam para as eleições de outubro, existe a expectativa de que surja um projeto inovador para a próxima gestão. Nesse sentido, refletir sobre a baixa produtividade do trabalhador brasileiro é fundamental para confrontar os resquícios de um passado extrativista que continua a limitar o desenvolvimento nacional.
———————————————————————-
- Artigo publicado no Diário do Comércio – Conteúdo
- Foto destaque: Reprodução / Redes Sociais
-
OPINIÃO2 dias atrásProdutividade travada: fatores históricos que explicam o atraso do Brasil
-
Política / Eleições7 dias atrásSaiba quem são os candidatos a vice-governador nas eleições 2026 no ES
-
Política Nacional5 dias atrásGilmar procura Lula para cobrar apoio do governo à cúpula da PF em embate entre Moraes e Mendonça
-
GERAL5 dias atrásEstátua gigante da Havan terá escolta para chegar à nova loja em Vila Velha
-
Brasil / Economia5 dias atrásEuropa veta entrada de carne do Brasil a partir desta quinta-feira
-
Política Nacional5 dias atrásCCJ aprova relatório da PEC pelo fim da escala 6×1
-
Esportes / Futebol7 dias atrásMessi anuncia em carta sua aposentadoria na Seleção Argentina
-
EVENTOS5 dias atrásConcurso de Qualidade do Café Conilon é destaque em Jaguaré