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Organização Criminosa

Investigação mostra como o Comando Vermelho entrou em órgãos públicos e mira a política no Rio

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SEGURANÇA

Inquérito mostra mensagens entre chefes do tráfico planejando alianças políticas para obter proteção institucional e barrar ações do Estado

Por Mateus Aguiar* | Rio de Janeiro – RJ

Era uma tarde de terça-feira de janeiro do ano passado quando o traficante Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca e apontado como o número um do Comando Vermelho no Complexo da Penha, recebeu um alerta por mensagem de áudio enviado por um comparsa, orientando-o a trocar de aparelho e de número porque seu telefone estava sendo monitorado pela Polícia Civil. O aviso foi acompanhado pela foto da fachada da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas e Inquéritos Especiais e pelo recado de que o delegado havia retornado de férias naquele mesmo dia, explicitando o acesso da facção a informações privilegiadas sobre as forças de segurança. O flagrante consta em um inquérito da Polícia Federal que revela uma ambição ainda maior do grupo criminoso: o plano de cooptar políticos influentes junto ao governo do Rio. Doca, que acumula mais de 300 anotações criminais e liderou a tomada de mais de 40 favelas nos últimos três anos, é um dos principais articuladores dessa estratégia de expansão territorial e institucional. Acima dele na hierarquia permanece Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, chefe histórico que, mesmo preso há 19 anos em um presídio de segurança máxima, utiliza intermediários como advogados e parentes para ditar os rumos do tráfico, definir promoções e gerenciar o caixa financeiro clandestino da facção. Ambos abrem a série de reportagens que detalha o poder dos líderes que comandam o crime organizado fluminense.

A atuação do Comando Vermelho agora avança para além do tráfico de drogas e armas, alcançando setores da economia formal, como provedores de internet e transações com criptomoedas, além de buscar infiltração nas redes de poder. Esse avanço político gerou desdobramentos recentes, como as prisões dos ex-deputados estaduais Rodrigo Bacellar e Thiego Raimundo dos Santos Silva, o TH Jóias, que negam envolvimento com o grupo. O interesse em aliciar agentes públicos ficou ainda mais evidente quando os investigadores interceptaram mensagens de 16 de janeiro de 2025 entre Doca e o traficante Carlos Costa Neves, o Gardenal. Na ocasião, Gardenal enviou uma foto do deputado estadual Roosevelt Barreto Barcelos, o Val Ceasa, durante uma reunião institucional sobre o programa Segurança Presente no Palácio Guanabara, onde o parlamentar aparecia ao lado do então governador Cláudio Castro e de dois vereadores. Junto à imagem, o comparsa afirmou que o deputado era o contato de um rival, recebendo de Doca a resposta imediata de que precisavam trazer o político para o lado deles. Segundo a Polícia Federal, esse diálogo expõe a intenção clara de conquistar proteção oficial, influenciar decisões públicas e usar parlamentares como porta-vozes para evitar que ações do Estado atrapalhem os negócios nas áreas dominadas pela facção.

Embora as mensagens não detalhassem quem era o aliado original de Val Ceasa, fontes da Polícia Federal confirmaram que os criminosos se referiam a Álvaro Malaquias Santa Rosa, o Peixão, líder do Terceiro Comando Puro, organização rival do Comando Vermelho. Essa suposta ligação já havia sido apontada em reportagem posterior, que revelou que a demolição de um resort clandestino construído por Peixão na Cidade Alta foi postergada por 15 meses devido a uma articulação política atribuída a Val Ceasa. O episódio motivou a abertura de uma investigação sigilosa pela Procuradoria-Geral de Justiça. Em sua defesa, o deputado Val Ceasa declarou que a menção ao seu nome por terceiros não representa nenhum tipo de vínculo ou compromisso com o crime organizado, repudiando qualquer tentativa de associação. Da mesma forma, o ex-governador Cláudio Castro rechaçou as interpretações dos diálogos interceptados, ressaltando que a imagem registrada no Palácio Guanabara tratava puramente de uma agenda de trabalho institucional.

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Acesso a decisões

Sob a égide de Marcinho VP e Doca, porém, os olhos do CV não estão voltados apenas à política. A investigação da PF revelou também que integrantes do grupo tinham acesso indevido a decisões judiciais e documentos do Ministério Público do Rio ainda em fase de elaboração. Os arquivos, relacionados a rivais e integrantes da própria facção, foram encontrados após a análise de um backup pertencente ao policial militar Luciano da Costa Ramos Junior, que era cedido ao Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) e foi preso no ano passado

No armazenamento em nuvem do PM, os investigadores acharam a imagem de um texto em produção sobre uma denúncia contra Peixão e a foto de uma decisão, também em fase de edição, referente à representação de medidas cautelares contra familiares de Marcinho VP e de Doca.

O documento continha endereços de mandados de busca e apreensão, o que, segundo a PF, demonstra que o policial repassava aos traficantes conteúdos “altamente sensíveis e de natureza sigilosa”.

As apurações citam ainda dezenas de casos em que traficantes alinhavavam apreensões e trocavam informações com policiais militares e civis. Em uma das conversas interceptadas, um policial identificado como “Contato Draco” agradece ao criminoso: “Informação perfeita e precisa, daqui a pouco te mando a foto da apreensão aqui”.

De acordo com a PF, as relações funcionavam em um esquema de “benefício mútuo” entre traficantes e policiais. Os criminosos forneciam informações para que agentes atuassem contra facções rivais. Em outros casos, pagavam propina para obter detalhes sobre investigações em andamento, como na ocasião em que um policial orientou Doca a trocar de telefone em razão de um inquérito da Draco. A Polícia Civil apura o caso na Corregedoria-Geral de Polícia Civil (CGPOL), num procedimento sob sigilo.

Sobre as acusações contra Marcinho VP, sua defesa diz que todas as visitas com advogados e familiares são gravadas pela direção da penitenciária e que a equipe segue segura de que provará sua inocência.

O que dizem os citados

Em nota, o deputado Val Ceasa informou que jamais teve qualquer relação com organizações criminosas ou praticou qualquer ato ilícito.

“Sou uma pessoa pública, com atuação política conhecida em todo o Estado do Rio de Janeiro, participando diariamente de agendas institucionais, eventos públicos, reuniões políticas e encontros com inúmeras pessoas e autoridades. Infelizmente, o fato de terceiros mencionarem meu nome ou desejarem proximidade política não significa, em hipótese alguma, qualquer relação pessoal, aliança ou compromisso da minha parte. Da mesma forma que criminosos muitas vezes tentam se aproximar ou citar nomes de autoridades, parlamentares, promotores, juízes, delegados e outras figuras públicas para buscar prestígio ou influência, isso jamais significará vínculo legítimo com pessoas de bem e comprometidas com a lei.

Repudio qualquer tentativa de associação indevida da minha imagem ao crime organizado. Minha trajetória pública sempre foi pautada pelo trabalho, pela transparência e pelo respeito às instituições. Quanto aos fatos mencionados em reportagens anteriores, reitero que nunca houve demonstração de qualquer conduta irregular da minha parte e permaneço à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos necessários”.

Em nota, o ex-governador Cláudio Castro afirmou que repudia qualquer tentativa de associá-lo a organizações criminosas “a partir de interpretações atribuídas a diálogos de terceiros investigados pela Polícia Federal.

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“A imagem mencionada retrata uma reunião institucional no Palácio Guanabara com um deputado da base do governo e dois vereadores da capital. Ao longo de dois mandatos, o então governador recebeu milhares de parlamentares, lideranças políticas, representantes da sociedade civil e setores econômicos do estado.

Não existe qualquer tipo de ligação do ex-governador com facções criminosas. Ao contrário: sua gestão teve como uma das principais marcas o enfrentamento firme ao Comando Vermelho e ao crime organizado, com operações integradas, investimentos recordes em Segurança Pública, fortalecimento das forças policiais, uso intensivo de inteligência e tecnologia e ações permanentes contra lideranças do tráfico.

Foi sob sua gestão, inclusive, que o Estado realizou a Operação Contenção, considerada uma das maiores ofensivas contra o Comando Vermelho no Rio de Janeiro, além de uma atuação permanente em defesa do endurecimento das leis contra facções criminosas e da classificação desses grupos como organizações de narcoterrorismo. O ex-governador também lamenta o vazamento seletivo de investigações, prática que não contribui para o fortalecimento das instituições nem para a correta apuração dos fatos, sempre respeitando o direito à ampla defesa”.

A defesa do Márcio dos Santos Nepomuceno, o Marcinho VP, pontuou que todas as visitas com advogados e familiares são gravadas e monitoradas em tempo real pela direção da penitenciária e pelo setor de inteligência do SENAPEN.

“As correspondências seguem o mesmo rigoroso controle. Desse modo, para que fosse verdade que ele se comunicasse seria necessário que agentes federais, diretores das penitenciárias e autoridades do Ministério da Justiça estivessem praticando crime de prevaricação ou de organização criminosa. O uso de seu nome como folheto eleitoreiro por parte de quem não tem nenhum compromisso com a verdade e com o devido processo legal, se utilizando do direito penal do inimigo como moeda de troca nas eleições de outubro é a repetição de uma estratégia perversa que o mantém como preso político há trinta anos. A defesa segue segura de que pela décima oitava vez provará sua inocência”.

O vereador Ulisses Marins disse que não tem qualquer ligação com pessoas envolvidas em organizações criminosas.

“Sobre a citação feita na reportagem do ano passado, nunca houve qualquer conclusão ou medida que apontasse irregularidade da minha parte. Meu trabalho sempre foi pautado pelo diálogo institucional e pela atuação pública transparente”.

Jair de Mendes afirmou, em nota, que a agenda no Palácio Guanabara foi articulada por ele em um contexto político e institucional.

“A existência de uma fotografia em ambiente público ou comentários feitos por terceiros investigados não podem ser usados para criar qualquer ilação sobre minha conduta. Não tenho qualquer envolvimento com organizações criminosas e repudio qualquer tentativa de associação da minha imagem a esse tipo de prática. Sou uma pessoa pública, conhecida no meio político e social, e naturalmente participo de reuniões, encontros e agendas com diversas autoridades, lideranças e pessoas da sociedade civil. Isso jamais pode ser confundido com vínculo ou relação com atividades ilícitas”.

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  • Diário do Rio – Conteúdo
  • Foto destaque: Marcinho VP / Reprodução / Internet
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SEGURANÇA

Irmãos policiais fazem troca de comando inédita na PM do ES

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Esta foi a primeira vez em 191 anos da PMES em que um irmão transmitiu o comando para outro

Por Guilherme Lage* | Vitória (ES)

Um momento inédito marcou a história da Polícia Militar do Espírito Santo, nesta segunda-feira (22), em Vitória. Nesta data, pela primeira vez em 191 anos de PM no Estado, um irmão transmitiu o comando de uma unidade para o outro.

O momento solene aconteceu com a transmissão da 12ª Companhia Independente, que patrulha a região continental deVitória ao major Baltazar Rubim Garcia. Ele recebeu a responsabilidade das mãos do irmão mais novo, Isaac Rubim Garcia.

Isaac assumirá o 1º Batalhão da Polícia Militar, também na Capital. Segundo ele, poder passar o comando da Companhia Independente ao irmão, foi um momento único e histórico, cheio de emoção.

Foi emocionante! Inicialmente, porque transmiti o comando a uma pessoa extraordinária e que cuidará muito bem da Unidade. Em segundo lugar porque sabemos que foi um momento histórico nos 191 anos de existência da PMES, Major Isaac Rubim Garcia

Família de policiais

Isaac e Baltazar vêm de uma família com seis irmãos em que quatro são policiais. De acordo com Isaac, o desejo de se tornar um policial militar surgiu quando ainda era criança, em 1990.

Isso porque naquele ano, a irmã mais velha, Rosane, ingressou na corporação. Quatro anos depois foi a vez do outro irmão, Ubiratan. Dali para a frente, o desejo de ser policial nunca mais passou.

“Rosane, a mais velha, entrou na PM em 1990 e se aposentou na graduação de subtenente. Ubiratan ingressou em 1994 e se aposentou no posto de capitão. A família sempre ‘respirou’ a Polícia Militar e ficou muito emocionada com o momento. Quando Rosane entrou na PM, eu era uma criança de apenas 7 anos e, desde já, quis seguir os passos dela. Ela foi minha inspiração”, contou.

Para Isaac, assumir o 1º Batalhão é motivo de orgulho e sentimento de honra. Aos 44 anos, o major está há 25 anos na corporação.

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Segundo ele, poder compartilhar o momento com o irmão torna a celebração ainda mais significativa.

“Isso, de certo modo, é um prêmio para nossa carreira, um reconhecimento também da história que a gente trilhou na Polícia Militar, estou muito feliz e foi no primeiro batalhão que eu iniciei minha carreira operacional, após o Curso de Formação de Oficiais. Comecei aqui em dezembro de 2003, ingressei na Polícia Militar em março de 2001, em dezembro de 2003 iniciei minha carreira no primeiro batalhão e fui até 2010 aqui”, disse.

“Honra e responsabilidade”, diz major

Para o major Baltazar, que assume o posto que era do irmão, o momento se tornou simbólico por conta da responsabilidade que se assume ao se tornar comandante de uma unidade.

Tudo se tornou mais especial por ter vivido o momento, justamente em família, ao lado do irmão e com a presença da mãe e das esposas de cada um.

Foi um momento de grande emoção e significado. Na condição de policial militar, assumir o comando de uma Unidade já representa, por si só, uma enorme honra e responsabilidade. Mas receber essa missão das mãos do meu irmão tornou a ocasião ainda mais especial. Todos os irmãos, nossa mãe, esposas, filhos e demais familiares e amigos vieram prestigiar, Major Baltazar Rubim Garcia.

Ainda segundo ele, o momento foi marcado por reflexão sobre a confiança que a corporação tem nos irmãos.

“Recebi a missão com gratidão e o compromisso de dar continuidade ao excelente trabalho desenvolvido na 12ª Companhia Independente, sempre buscando servir da melhor forma à população de Vitória”, disse.

Continuidade ao trabalho do irmão

Segundo Baltazar, assumir a nova missão à frente da 12ª Companhia exige dedicação, equilíbrio e total alinhamento com os valores institucionais da Polícia Militar.

De acordo com ele, as pessoas podem esperar a continuidade do trabalho iniciado pelo irmão, que ele classifica como “pautado na preservação da ordem pública, no fortalecimento do policiamento ostensivo e na aproximação cada vez maior com a comunidade”.

“Também pretendo dar sequência às ações integradas com outros órgãos e reforçar o emprego estratégico do policiamento, valorizando o profissionalismo da tropa e o compromisso com a missão constitucional da Polícia Militar”, afirmou.

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Quem são os irmãos policiais

Isaac Rubim Garcia nasceu em 1982, em Alegre, e ingressou na PMES em 2001, aos 18 anos, por meio do Curso de Formação de Oficiais. Formado em 2003, iniciou a trajetória no 1º Batalhão, em Vitória, onde atuou como comandante de Policiamento da Unidade.

Ao longo da carreira, desempenhou funções como comandante de pelotão de patrulhamento tático motorizado e subcomandante da Companhia de Operações com Cães do Batalhão de Missões Especiais (BME).

Como capitão, passou por unidades como o Batalhão de Polícia de Trânsito, o 14º BPM, a Casa Militar do Governo e o 6º BPM. Já como major, atuou no Ciodes e na Diretoria de Recursos Humanos do Quartel do Comando-Geral, além de comandar por quatro anos a 12ª Companhia Independente. Agora, assume o comando do 1º Batalhão, unidade onde iniciou a carreira operacional.

Já Baltazar Rubim Garcia nasceu em 1979, em Jerônimo Monteiro, e ingressou na PMES em 2007, aos 27 anos, também pelo Curso de Formação de Oficiais, concluído em 2009. Sua primeira atuação foi no 9º Batalhão, em Cachoeiro de Itapemirim, onde exerceu funções como comandante de policiamento da unidade e chefe de seções de planejamento, recursos humanos e inteligência.

Também serviu no 1º Batalhão, acumulando funções de comando e inteligência, além de ter atuado como chefe de curso na Academia de Polícia Militar. Como capitão, passou pelo Batalhão de Missões Especiais, pelo 6º BPM, pelo 2º BPM e pela Diretoria de Tecnologia da Informação.

Já no posto de major, foi chefe da Divisão Operacional do 6º BPM entre 2024 e 2026. Agora, assume o comando da 12ª Companhia Independente da PMES.

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  • Folha Vitória – Conteúdo
  • Foto destaque: Divulgação / PMES
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