Medicina & Saúde
Pesquisa brasileira avança em tratamento para psoríase e vitiligo
SAÚDE
Pesquisa utiliza nanotecnologia para combater psoríase e vitiligo com precisão. Na prática, é como parar a transmissão da informação, antes que ela seja convertida em proteínas. Isso reduz a inflamação sem recorrer a medicamentos que agem em todo o organismo
Por Isabella Almeida* | Brasília (DF)
Uma pesquisa de cientistas brasileiros pode revolucionar o tratamento de doenças de pele como psoríase e vitiligo. O grupo, vinculado ao laboratório NanoGeneSkin da Universidade de São Paulo (USP), em Ribeirão Preto, está desenvolvendo nanopartículas capazes de transportar moléculas terapêuticas de RNA diretamente para células epiteliais. Essas estruturas podem silenciar com precisão os genes responsáveis pela inflamação crônica. Os avanços do trabalho foram apresentados recentemente na semana da Fapesp, em Londres.
“Iniciamos essa linha de pesquisa há duas décadas e, nesse período, acumulamos conhecimento na produção e caracterização de nanopartículas lipídicas capazes de transportar não apenas fármacos, mas também RNA de interferência — moléculas que atuam sobre genes específicos —, com a finalidade de tratar doenças crônicas da pele, como psoríase, câncer e vitiligo”, disse Maria Vitória Bentley, coordenadora do NanoGeneSkin, à Agência Fapesp.
A psoríase acomete aproximadamente 190 milhões de pessoas em todo o mundo, o equivalente a cerca de 2% a 3% da população global. No Brasil, acredita-se haver cerca de cinco milhões de pessoas com a doença. De caráter crônico, genético e imunomediado, a condição acontece por conta de uma resposta exacerbada do sistema imunológico associada a fatores hereditários. Entre suas principais manifestações estão lesões inflamatórias graves na pele, provocadas pela produção excessiva de citocinas pró-inflamatórias.
Apesar das diferenças, as duas doenças apresentam um ponto em comum que as torna candidatas promissoras para terapias baseadas em RNA: a presença de genes com atividade anormal ou superexpressão, que impulsionam o desenvolvimento da doença. “Entendemos quais são os alvos e usamos um RNA complementar específico para silenciar a produção dessa citocina”, frisa Bentley.
Silenciamento gênico
A estratégia desenvolvida pelo grupo utiliza pequenas moléculas sintéticas conhecidas como siRNAs, que agem diretamente sobre o RNA mensageiro encarregado da produção das citocinas inflamatórias. Na prática, é como interromper a transmissão da informação antes que ela seja convertida em proteínas. Dessa forma, reduz-se a inflamação sem recorrer a medicamentos que atuam em todo o organismo.
Entretanto, fazer com que essas moléculas cheguem às células da pele representa um grande desafio. O RNA possui baixa estabilidade química e é rapidamente degradado por enzimas presentes no organismo. Além disso, a própria pele funciona como uma barreira biológica altamente eficiente, dificultando a penetração dessas moléculas.
Para superar esse obstáculo, os pesquisadores desenvolveram nanopartículas de cristal líquido, compostas por lipídios organizados em uma estrutura interna ordenada, mas ao mesmo tempo flexível. Essa configuração permite encapsular o material genético, protegendo-o da degradação e favorecendo sua passagem pela pele até alcançar as células-alvo.
Em três frentes de pesquisa apresentadas por Bentley, a equipe demonstrou que essas nanopartículas são eficientes para promover o silenciamento gênico, aumentar a liberação de RNA no interior das células por meio de técnicas físicas, como a fotoativação com luz, e transportar simultaneamente diferentes RNAs e medicamentos anti-inflamatórios convencionais em uma única nanopartícula.
Os resultados foram confirmados tanto em modelos celulares, por meio de experimentos com células cultivadas em laboratório, quanto em estudos com animais que apresentavam lesões induzidas semelhantes às observadas nas doenças.
Segundo Natasha Crepaldi, dermatologista e fundadora da Clínica Crepaldi, no Mato Grosso, a tecnologia apresenta perspectivas bastante promissoras. “Mesmo com tratamentos muito eficazes e avançados, ainda existem pacientes que enfrentam dificuldades relacionadas à adesão ao tratamento, à resposta limitada ou aos efeitos adversos. Com sistemas nanotecnológicos, existe a expectativa de uma entrega mais inteligente, alvo-específica, dos ativos terapêuticos, o que pode melhorar os resultados clínicos e proporcionar mais qualidade de vida. Embora ainda sejam necessários estudos e etapas regulatórias, os resultados iniciais geram bastante expectativa.”
Outras aplicações
Atualmente, novas pesquisas utilizam essa mesma plataforma para o tratamento do vitiligo, área em que o grupo já possui uma patente envolvendo RNA e nanopartículas, além da cicatrização de feridas crônicas, um problema de saúde que ainda carece de terapias plenamente eficazes.
Outra linha de investigação amplia o alcance da tecnologia para além das doenças dermatológicas. Os pesquisadores trabalham no desenvolvimento de uma nanoestrutura voltada à administração de mRNA, capaz de instruir as células a produzirem proteínas específicas. Essa abordagem poderá ser aplicada no desenvolvimento de vacinas, incluindo um imunizante experimental contra o câncer.
Palavra de especialista

Paula Chicralla, dermatologista, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica e da Academia Americana de Dermatologia
O tratamento da psoríase evoluiu significativamente. Atualmente, dispomos de terapias tópicas, fototerapia, medicamentos sistêmicos convencionais e uma nova geração de imunobiológicos. Esses medicamentos atuam em alvos específicos do processo inflamatório, oferecendo taxas de controle cada vez maiores. Além disso, muitos desses tratamentos já estão disponíveis tanto na rede privada quanto em protocolos do Sistema Único de Saúde (SUS), ampliando o acesso para pacientes com formas mais graves da doença.
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*Correio Braziliense – Conteúdo
*Foto destaque: Crédito – NanoGeneSkin / divulgação
SAÚDE
Lito Sousa apela para tratamento experimental
Influencer faz vídeo e pede apoio para vencer doença rara que pode matá-lo; seguidores se mobilizam. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, promete se empenhar para ajudá-lo
Por Caetano Yamamoto* | Brasília (DF)
Joselito Geraldo de Sousa, conhecido como Lito, de 59 anos, piloto e dono do canal Aviões e Música, apareceu nas redes sociais ontem, apelando para ter acesso a um tratamento experimental para a doença Creutzfeldt-Jakob — que ainda não tem tratamento padrão e gera perda dos movimentos e demência. A condição neurológica rara é degenerativa e pode matar. É causada pelo acúmulo de proteínas anormais (príons) no cérebro e provoca a destruição dos neurônios. Por enquanto, não existe cura.
Essa foi a primeira aparição do influencer nas redes sociais desde o anúncio do diagnóstico, feito por sua esposa, Mila Seidl, no dia 21. No vídeo, Lito fala, em inglês, que tem um apelo urgente e pede para os seguidores escutarem cuidadosamente a mensagem. “Olá, meu nome é Lito Sousa e eu tenho um apelo urgente para você. Por favor, escute com atenção a seguinte mensagem”, diz.
Em seguida, o palestrante e tradutor Ewandro Magalhães, ainda falando em inglês, detalha que este é um apelo urgente para a Ionis Pharmaceuticals, o Broad Institute, Harvard e a Mayo Clinic. O intérprete cita dois experimentos capazes de ajudar Lito: ION717, da Ionis Pharmaceuticals, e Prism Trial, do Broad Institute.
A Universidade Harvard, nos Estados Unidos, mantém uma lista de possíveis pacientes para experimentos. Porém, a instituição estaria temporariamente fechada para novas admissões e deve voltar a receber casos em 20 de outubro.
“Lito tem milhões de seguidores cujas vidas foram impactadas de várias formas diferentes. Incluí-lo nesses estudos lhe dará uma chance de lutar, ao mesmo tempo em que trará atenção global para a pesquisa. Por favor, revisem o caso dele com urgência. E se isso apareceu no seu feed, por favor, compartilhe amplamente. Certifique-se de marcar as instituições mencionadas nas legendas. Cada minuto importa. Muito obrigado antecipadamente”, suplicou.
Mobilização
A situação de Lito provocou uma mobilização de brasileiros nas redes sociais. Usuários passaram a publicar comentários no perfil da farmacêutica e a marcar a conta de Lito, pedindo que a empresa avalie a possibilidade de incluí-lo na pesquisa. A repercussão do caso levou à formação de uma rede de pessoas que passaram a auxiliar a família na busca por informações, alternativas de tratamento e estudos relacionados à doença. Para Mila, a mobilização trouxe ânimo em meio à piora do quadro.
“Essa é uma corrente tão forte que é difícil não pensar que um milagre vai acontecer. Recebi palavras motivadoras também”, disse o influencer. No YouTube, Lito tem 3,7 milhões de seguidores, já no Instagram são 3,2 milhões, e no TikTok, 1,2 milhão.
A família dele criou uma estrutura para organizar o grande volume de informações e contatos recebidos desde que o estado de saúde do piloto foi divulgado nas redes sociais. Para enviar qualquer tipo de ajuda, a família pede para repassar para: [email protected].
De 2005 a 2021, de acordo com os dados oficiais, foram confirmados apenas 547 casos da doença Creutzfeldt-Jakob no país. Segundo especialistas, surge de 1 a 2 diagnósticos a cada 1 milhão de pessoas no mundo.
Repercussão
No vídeo, influenciadores, políticos, instituições e internautas enviaram mensagem de apoio para Lito. O Palmeiras, clube de futebol, o qual Lito aparece vestindo a camisa na publicação, desejou forças ao influenciador. “Força, Lito! Estamos com você!”.
O humorista francês Paul Cabannes comentou “vamos tentar de tudo”. A TNTEsportsBR, canal de televisão focada em esportes, desejou forças para o piloto. “Estamos com você, Lito! Muita força!”.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, revelou, também nas redes sociais, que a pasta está em contato com o influenciador para ajudar no caso. Padilha respondeu a um internauta no X que questionou se o Ministério da Saúde poderia ajudar no caso, citando um dos institutos com os quais a família de Lito está dialogando. “Estamos em contato”, escreveu.
Internautas enviaram mensagens de apoio. “Eu te amo, Lito! Nós te amamos. Turbulência não derruba avião. Força!”. Outro comentou: “Força, Lito!!!! O Brasil TODO está com você! Deus vai honrar toda essa força”.
Há, ainda, aqueles seguidores que preferem se manifestar apenas marcando as instituições mencionadas no vídeo. A intenção é pressioná-las a dar uma resposta positiva para o influencer e sua família.
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- Matéria do Correio Braziliense – Conteúdo / Supervisão de Fábio Grecchi
- Foto destaque: Reprodução / Instagram Lito Souza
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