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Artigo / Opinião

O analfabetismo funcional não é problema só dos pobres

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OPINIÃO

A elite que lê e não entende, mas tem diploma

Por Fabrício Zavarise*

No imaginário brasileiro médio, o analfabetismo funcional tem endereço fixo: a periferia. E não somente. Também frequentou escola pública precária, tem renda baixa e, geralmente, não é branco. Ou seja, “é um problema daqueles que o sistema abandonou, e não meu”.

Esta narrativa é tão confortável quanto falsa. O analfabetismo funcional mora também nos escritórios de torres envidraçadas, nas salas de reunião com café gourmet em cápsula de gente que fala o dialeto farialimer nasalisado, nos currículos com MBA e em perfis do LinkedIn com mais de 5000 conexões. Só não atende por esse nome.

O que o INAF realmente diz

Durante o último governo da Ditadura Militar, quando se queria ofender alguém pelo seu baixo nível de inteligência, chamavam-no de MOBRAL. O Movimento Brasileiro pela Alfabetização visava a ensinar a população adulta a ler e escrever. Hoje, o Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) mede, desde 2001, não somente a capacidade de assinar o próprio nome, pois essa já não é mais a fronteira relevante, e sim a capacidade de compreender, interpretar e usar a informação escrita em situações do quotidiano.

Os dados do INAF 2024 são perturbadores não pelo que mostram sobre a base da pirâmide, mas pelo que revelam sobre os seus estratos intermediários. Apenas 12% da população brasileira atinge o nível pleno de alfabetismo. Isto é, ler textos longos, estabelecer relações entre informações implícitas, avaliar a credibilidade de uma fonte, construir argumentos a partir de dados e fatos. Os restantes 88% operam em níveis que variam entre o analfabetismo absoluto e o básico.

Esses mesmos 88% não respeitam o nível de escolaridade. Há analfabetos funcionais com diploma universitário. Pessoas que concluíram cursos de pós-graduação e não conseguem ler e compreender um contrato, interpretar gráficos ou detectar um argumento falso quando vem aparentemente bem construído. Os diplomas foram distribuídos a esmo, só não ensinaram compreensão de texto nem português.

A métrica que o Brasil varre para debaixo do tapete

A IEA (International Association for the Evaluation of Educational Achievement) é uma organização independente que coordena avaliações comparativas internacionais sobre aprendizagem. Ela aplica, a cada 5 anos, o PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study) a alunos do 4.º ano do ensino fundamental em mais de 50 países, com foco exclusivo em compreensão leitora.

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Na edição de 2021, apenas 13% dos alunos brasileiros atingiram nível alto ou avançado de compreensão leitora. Cerca de 24% dominam somente habilidades básicas. A pontuação média do Brasil foi de 419 pontos, equiparável à do Kosovo e à do Irã.

O dado mais revelador, porém, está na discrepância entre o que esse estudo internacional vê e o que o nosso SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica) registra. Especialistas apontam que a avaliação nacional não inclui textos tão longos nem exigências comparáveis às da avaliação internacional.

Assim, o Brasil vai mal segundo a régua de fora. Segundo a sua própria, está tudo bem. O sistema de avaliação nacional está calibrado para não enxergar o próprio déficit.

Analfabetos com diploma universitário

As consequências da educação básica deficitária revelam-se nas várias camadas de analfabetismo funcional. Alguns exemplos: o executivo que não consegue interpretar um relatório completo, o gestor que decide com base num PowerPoint de 10 slides porque não sustenta a atenção além disso, o jornalista que reproduz o comunicado de imprensa sem verificar fatos e omissões de informação, o professor que publica artigos, mas não consegue escrever um texto de opinião coerentemente.

Teoricamente, nenhum destes é analfabeto no sentido convencional. Todos têm escolaridade, leem tecnicamente, uns até falam inglês e têm MBA. O que não fazem é compreender com a profundidade que o seu cargo ou a sua responsabilidade exigiria.

Não é falta de vocabulário, mas de processamento. A leitura superficial, que extrai a informação imediata sem construir relação entre ela e o contexto, sem avaliar a qualidade da fonte, sem detectar o que está implícito ou ausente, não é leitura funcional. É apenas um reconhecimento de palavras com ilusão de compreensão.

E esta ilusão é particularmente perigosa em quem tem o poder de decisão nas mãos. Quem decide mal com base numa leitura deficiente não sofre, em geral, as consequências imediatas. Já os que executam as suas decisões erráticas pagam um alto preço.

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O que a escola fez com isso

O ensino da leitura no Brasil foi historicamente reduzido à decodificação. Aprender a ler significava aprender a transformar símbolos gráficos em sons. Compreender o que esses sons significam em contexto, em relação com outros textos e com o mundo foi considerado uma consequência natural. Porém, não o é.

A compreensão leitora é uma competência que se ensina, que se pratica repetidas vezes e que se desenvolve com textos progressivamente mais exigentes, com perguntas mais complexas. E, principalmente, com um professor que sabe distinguir bem o aluno que compreendeu daquele que apenas reproduziu. Esta distinção exige tempo, critério e uma concepção de ensino que vai muito além de cumprir o currículo.

Hoje temos uma população que completou anos de escolaridade sem nunca ter sido confrontada com um texto que exigisse dela mais do que a localização de informações explícitas. O resultado é o que o INAF documenta e que aparece até mesmo nos níveis superiores da pirâmide social. Temos, sim, uma elite de analfabetos funcionais.

O analfabetismo funcional pode até mudar de endereço, de roupa, de cifras no IR, de escola ou faculdade. O que não muda é a incapacidade da esmagadora maioria dos brasileiros, de todas as castas, ler com profundidade, de argumentar com coerência e coesão e de pensar com o texto.

A única diferença é que o analfabeto funcional da periferia tem ciência de que não sabe. Já o que tem um diploma na mão vive a ilusão de que sabe, e ainda desdenha dos outros.

E é este o mais difícil de se ajudar.

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  • O autor é mestre em Educação Linguística (University of Chichester), especialista em Educaçao Bilíngue e licenciado em Letras. MBA em Gestão Estratégica & IA (UFJF), certificado em Liderança do International Baccalaureate® e Cambridge CELTA. Trilíngue, escritor e consultor, discorre sobre linguagem, educação, IA aplicada, / Coluna do portal Folha Vitória
  • Foto destaque: Imagem gerada por IA
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OPINIÃO

Rumos da Política / Abril 2ª edição

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Por Paulo Roberto Borges

Vergonha
Mais um vexame envolvendo o Brasil, tendo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como protagonista. Desta vez, o episódio está relacionado à ingerência de um policial federal que teria tentado manipular a legislação de imigração dos Estados Unidos, numa clara perseguição ao ex-deputado Alexandre Ramagem, que reside legalmente naquele país.

Essa situação remete ao caso de Filipe Martins, que foi injustamente preso com base em uma acusação posteriormente desmontada por provas robustas. Fica a dúvida: o delegado expulso, Marcelo Ivo Carvalho, tem alguma relação com esse episódio?

O constrangimento aumentou quando a própria Polícia Federal informou que Ramagem seria extraditado e expulso dos Estados Unidos. No entanto, quem acabou sendo expulso foi o agente brasileiro.

O presidente Lula falou em retaliação sem sequer determinar a apuração dos fatos que motivaram o ocorrido. Disse não ter conhecimento do caso, mas, ainda assim, afirmou que pretende retaliar os Estados Unidos. Retaliar sem a comprovação de um crime é, no mínimo, precipitado e revela uma intenção difícil de justificar. Na prática, antecipa-se um cenário que sequer se concretizou. O fato é que um agente brasileiro, em território norte-americano, teria violado a legislação migratória local.

Em tempo: o agente americano no Brasil perdeu sua credencial, mas, até o momento, não foi expulso.

Turismo em Guriri
A Prefeitura de São Mateus lançou o programa Aceleratur Guriri — uma iniciativa válida e oportuna. No entanto, o município possui outros atrativos que, há muito tempo, permanecem esquecidos. Para promover Guriri de forma eficaz e atrair visitantes, é fundamental que a administração municipal ofereça condições adequadas para receber turistas.

Não basta apenas qualificar proprietários de bares, botecos, restaurantes, pousadas e hotéis. Guriri não pode ter como único atrativo sua bela praia. É necessário planejar e promover eventos também fora da alta temporada, ampliando o fluxo turístico ao longo de todo o ano.

Trata-se de um programa que, ao que tudo indica, precisa ser estruturado com visão de longo prazo. O balneário ainda enfrenta problemas recorrentes, como alagamentos e, após períodos de chuva, ruas esburacadas e com excesso de poeira. Inclusive, algumas das vias mais antigas do centro ainda são de terra batida.

Além disso, é indispensável a implementação de uma política de turismo abrangente para todo o município, que possui grande potencial, mas ainda carece de exploração estratégica.

Também é necessário investir na formação de mão de obra especializada, incluindo a capacitação de guias turísticos para os pontos históricos, oferecendo informação e orientação adequadas aos visitantes. Vale destacar que o município recebe muitos veranistas e turistas em períodos de feriado, mas ainda carece de fluxo contínuo ao longo do ano.

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Ataques a quem trabalha
Alguns vereadores de São Mateus têm sido alvo de ofensas nas redes sociais, e seus autores são conhecidos. Trata-se de pessoas que estiveram à frente do município por oito anos e pouco contribuíram para o desenvolvimento local. Aliás, contribuíram, sim — como já demonstraram investigações da Polícia Federal. Agora, resta à Justiça cumprir seu papel.

A vereadora Isamara da Farmácia (União) e o vereador Branco da Penal (PL) estão entre os mais atingidos — coincidentemente, dois dos mais atuantes e com relevantes serviços prestados ao município e à população. Ambos são pré-candidatos a deputado estadual.

Messias “dançou”
O Senado fez história ao rejeitar a indicação de Messias, nomeado pelo presidente Lula para ocupar a vaga deixada por José Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF). O episódio é considerado histórico, já que situação semelhante só havia ocorrido no século XIX, durante o governo de Floriano Peixoto (1891–1894).

Para analistas políticos, o resultado representa uma vitória da oposição, mas também teria contado com a influência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Soma-se a isso a insatisfação de parte da base governista, que reclama da falta de atenção do governo federal.

Outro fator apontado é a atuação do ministro do STF, Flávio Dino, cujas decisões têm gerado desconforto entre parlamentares.

Nos bastidores, comenta-se que o favorito de Alcolumbre para a vaga seria Rodrigo Pacheco. Já Messias, associado ao governo Dilma, enfrentava forte rejeição. Um editorial do jornal O Estado de S. Paulo, inclusive, pediu aos senadores que rejeitassem sua indicação.

O presidente Lula ainda teria insistido para que Rodrigo Pacheco disputasse o governo de Minas Gerais, mesmo diante das dificuldades eleitorais, numa tentativa de viabilizar seu indicado ao STF. A estratégia, no entanto, não prosperou. O governo saiu politicamente derrotado no episódio, segundo avaliações no Congresso Nacional.

Há ainda a expectativa de que uma nova indicação só ocorra após as eleições. Nos bastidores, especula-se sobre diferentes nomes, inclusive o de Flávio Bolsonaro, caso venha a ocupar a Presidência da República.

Ambulantes 

A retirada dos ambulantes das ruas e avenidas, além de praça de São Mateus, foi uma ação elogiada pela maioria da população de São Mateus. As línguas de Matildes diziam que a demora desta ação, com atraso de alguns meses, foi pelo fato da maioria dos ambulantes terem votado no atual prefeito. O Ministério Público entrou na jogada e a municipalidade saiu da sua inércia com relação a essa vexatória situação que vitimou por oito anos a sociedade mateense. Nem a Praça Mesquita Neto podia mais ser frequentada pelas famílias.

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Bloco de Notas

Óbvio para alguns – O vereador de Vitória, Camillo Neves (PP), afirmou de forma direta o que muitos parlamentares pelo estado deveriam compreender: ordem de prefeito não se cumpre; ordem judicial, sim. Os poderes são independentes e harmônicos, não subordinados entre si.

Do azul ao lilás – O ex-vereador de Vitória Duda Brasil (PRD) pediu exoneração da Secretaria de Esporte e Lazer da Prefeitura, onde atuava como assessor adjunto, para assumir a subsecretaria de Esportes (Sesport) no governo do Estado.

Ele, que já foi líder do prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos) na Câmara, declarou apoio ao governador Ricardo Ferraço (MDB).

Segundo comentários de bastidores, por integrar o grupo do presidente da Assembleia Legislativa, Marcelo Santos — que apoia Ferraço —, Duda teria sido pressionado a se alinhar ao grupo político.

Compra mal feita – O governo Lula despejou na véspera da sabatina R$ 12 bilhões em emendas parlamentares para garantir a aprovação, no Senado, da indicação de Messias ao STF. O modus operandi que funcionou em outras épocas — e que resultou no escândalo do Mensalão — desta vez não deu certo. Fracassou.

Agora, ao que tudo indica, Lula deve continuar recorrendo ao que faz com maestria, além das narrativas, desde o início de seu governo: a vingança política.

Turismo na vitrine – Foi realizado em Vitória um dos maiores eventos do setor turístico, o ESTour. São Mateus não enviou representantes, apesar de se apresentar como um município com forte potencial turístico. Talvez por considerar que turismo se resume ao “Bunda Lelê” do verão.

Enquanto o ESTour acontecia, São Mateus lançava o programa AceleraTur Guriri.

Em tempo: o evento (ESTour) movimentou mais de R$ 15 milhões em negócios.

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Pode isso, Arnaldo?!

Não. Não pode.

Mesmo com uma arrecadação recorde, o governo Lula não consegue entregar serviços básicos de excelência. Além disso, esbanja recursos do contribuinte brasileiro em viagens com comitivas extensas, sem resultados práticos para o país.

Como consequência da condução de um governo gastador, há um rombo gigantesco nas contas públicas. Não há contenção de gastos, tampouco planejamento. Também não há sinais de mudança nesse cenário, mesmo com programas de caráter eleitoreiro que, aliás, ampliam ainda mais as despesas, recaindo sobre os trabalhadores que produzem e sustentam essa carga.

Reflexão

“O progresso é impossível sem mudança; e aqueles que não conseguem mudar as suas mentes não conseguem mudar nada”.

Autor: George Bernard Shaw

 

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