Relações Brasil - Estados Unidos
Itamaraty em alerta com recados de Trump para América Latina e Brasil
Política Internacional
Reação do presidente norte-americano de que há dependência, e não reciprocidade entre os países, leva a diplomacia a adotar cautela sobre as medidas de Washington
Por Israel Medeiros – Victor Correia*
Brasília / DF
A afirmação do presidente Donald Trump de que a América Latina depende mais dos Estados Unidos do que o contrário, e a ameaça de taxar os países do Brics em 100% caso substituam o dólar como moeda de negócio, deixaram a diplomacia brasileira em alerta. Isso ficou claro pelo comentário, ontem, da ministra interina das Relações Exteriores, embaixadora Maria Laura da Rocha, logo depois da confirmação do embaixador André Corrêa do Lago como presidente de COP 30, em novembro, em Belém.

Embaixadora Maria Laura da Rocha – Foto: João Risi / SEAUD / PR
“O presidente Trump pode falar o que quiser. Ele é presidente eleito dos Estados Unidos. E vamos analisar cada passo das decisões que forem tomadas pelo novo governo. Acredito que, como somos um povo que tem fé na vida, tudo vai dar certo sempre. Vamos trabalhar e apoiar não as nossas divergências, mas as nossas convergências, que são muitas”, afirmou.
O recado de Trump para a América Latina foi dado enquanto assinava as primeiras medidas de seu governo diante da imprensa, no Salão Oval da Casa Branca. Questionado pela jornalista Raquel Krähenbühl, da TV Globo, sobre quando conversaria com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e como enxergava a relação dos EUA com a América Latina e o Brasil, foi incisivo:
“Ótima. Deve ser ótima. Eles precisam de nós, muito mais do que precisamos deles. Não precisamos deles, eles precisam de nós. Todos precisam de nós”, afirmou.
Em 2024, os EUA mais venderam para o Brasil do que compraram. Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), houve um deficit de US$ 253 milhões na balança comercial com os norte-americanos no período. O país exportou US$ 40,33 bilhões e importou US$ 40,58 bilhões em mercadorias. No ano passado, os EUA foram o segundo maior parceiro comercial do Brasil.
Na reunião ministerial de segunda-feira, Lula disse que não queria briga com ninguém — sobretudo com os EUA. Em seu perfil no X (antigo Twitter), exaltou as relações entre os dois países.
Desconhecimento
Roberto Goulart Menezes, professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), considera que a afirmação de Trump sobre os EUA não dependerem do Brasil um sinal de desconhecimento. Ele ressalta que os norte-americanos têm interesse em frear a influência comercial da China no continente e que dificultar as relações com os países latino-americanos seria um erro estratégico. Para ele, a diplomacia brasileira tem sido cautelosa e assim deve continuar.
“Trump tem três grandes temas na política internacional: o primeiro é a guerra na Ucrânia; o segundo, é o Oriente Médio; e o terceiro é a China. Então, isso vai consumir muita energia dos Estados Unidos”, disse Menezes.
O professor lembrou que, mesmo no governo Trump, o Brasil continuou no acordo do Sistema Geral de Preferências (SGP) com os EUA — que concede benefícios tarifários a países do Hemisfério Sul que exportam para países do Hemisfério Norte.
Menezes, porém, observa que a preocupação para o Ministério das Relações Exteriores (MRE) é que Trump começa o segundo mandato mais experiente e terá os meios para retaliar adversários. “Esse Trump que vem aí conhece a máquina dos EUA. Não é o Trump do primeiro mandato, é o que sabe onde estão todos os botões e conhece as pessoas que sabem apertá-los. É isso o que preocupa mais as lideranças globais e o governo do Brasil”, afirmou.
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* Correio Braziliense – Conteúdo
* Foto/Destaque: Reprodução / Redes Sociais
Política Internacional
Irã confirma acordo com EUA, mas exige pagamento de pedágio em Ormuz
Trump e mediador paquistanês apresentaram informações contraditórias sobre o teor do texto que trata do fim da guerra
Estados Unidos e Irã alcançaram um acordo neste domingo (14) para estabelecer o fim imediato da guerra no Oriente Médio, incluindo o conflito no Líbano, e pretendem assinar o texto na sexta-feira (19), em Genebra. O país persa adicionou uma cláusula sobre o pagamento de pedágio marítimo no Estreito de Ormuz.
O teor do acordo não foi divulgado, mas o Irã indicou que as negociações devem começar em, no máximo, 60 dias, com o objetivo de alcançar um acordo definitivo em questões delicadas como o programa nuclear ou as sanções contra sua economia.
O compromisso foi anunciado pelo primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, mediador do conflito, que o qualificou de “passo histórico em direção à paz”. Posteriormente, Washington e Teerã confirmaram a informação.
“O acordo com a República Islâmica do Irã já está concluído. Parabéns a todos!”, escreveu Trump em sua plataforma Truth Social. “Autorizo plenamente a abertura sem cobrança de pedágio do Estreito de Ormuz e, simultaneamente, autorizo a suspensão imediata do bloqueio naval dos Estados Unidos. Navios do mundo, liguem seus motores. Que o petróleo flua!”, completou.
Pouco depois, ele afirmou que a passagem marítima só será reaberta após a assinatura do acordo na sexta-feira.
A agência iraniana Fars, no entanto, afirmou que o Irã incluiu, no último momento, uma cláusula sobre o pagamento de um pedágio marítimo no Estreito de Ormuz.
“Nos momentos finais da negociação, o texto do memorando de entendimento recebeu uma emenda para enfatizar de forma clara e explícita a questão da soberania do Irã e de Omã sobre o Estreito de Ormuz”, por onde transitam o gás e o petróleo exportados do Golfo, indicou a agência Fars, que citou uma fonte anônima que acompanha as negociações.
“O uso do termo ‘serviços marítimos’ significa que os Estados Unidos aceitaram o pagamento de pedágios ao Irã”, acrescentou a agência iraniana.
O fechamento de Ormuz teve um grande impacto na economia mundial, provocando inflação em alguns países e problemas de abastecimento de fertilizantes necessários para a produção de alimentos, entre outros.
Segundo o vice-ministro iraniano das Relações Exteriores, Kazem Gharibabadi, o acordo com Washington põe “fim imediato à guerra”.
Uma fonte diplomática próxima às conversações indicou que Estados Unidos e Irã devem manter negociações indiretas durante a semana no Catar, antes da assinatura do acordo na sexta-feira.
Moratória nuclear
O conteúdo do acordo, alcançado após semanas de negociações tensas e ameaças frequentes de Trump de novas hostilidades, não foi divulgado publicamente.
As partes publicaram informações contraditórias sobre o teor. Trump afirmou ao jornal The New York Times que o Irã aceitou uma moratória de 20 anos sobre o enriquecimento de urânio.
Por sua vez, Gharibabadi declarou que as próximas conversações abordarão o fim das sanções contra o Irã, a questão nuclear, a reconstrução e o desenvolvimento econômico de seu país e a implementação de um mecanismo de supervisão dos acordos alcançados.
Israel reagiu e anunciou que seu Exército “permanecerá nas zonas de segurança no Líbano, na Síria e em Gaza por um período ilimitado”, segundo as palavras do ministro da Defesa, Israel Katz.
O acordo foi recebido com alívio pela comunidade internacional. O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse esperar “que as partes aproveitem o novo impulso e redobrem seus esforços em direção a uma resolução final do conflito”.
Reino Unido, França, Alemanha e Itália celebraram o acordo e afirmaram que estão dispostos a suspender algumas sanções contra o Irã. Egito e Arábia Saudita também elogiaram o pacto.
Petróleo a US$ 80
O conflito começou em 28 de fevereiro com os bombardeios de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã, que respondeu atacando alvos americanos nos países do Golfo aliados de Washington.
Em 2 de março, o Líbano entrou na guerra devido aos ataques do Hezbollah contra Israel, que respondeu com uma ofensiva para “eliminar” o movimento xiita apoiado por Teerã. Os bombardeios israelenses provocaram mais de 3.700 mortes desde março, segundo o governo libanês.
Uma fonte oficial libanesa disse nesta segunda-feira (15) à reportagem que o governo de Beirute “não foi informado” sobre o acordo, nem sobre o momento em que entrará em vigor.
O acordo impulsionou as Bolsas e derrubou os preços do petróleo.
“O que poderemos fazer é reduzir o custo da energia, não apenas agora, mas a longo prazo, e criar um verdadeiro motor de prosperidade no Oriente Médio”, disse o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, ao canal Fox News.
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- Matéria da agência AFP – Conteúdo
- Foto destaque: Bandeira do Irã / Crédito: Heinz Peter Bader
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