Opinião
Coluna Bloco de Notas / Março – Por Paulo Borges
OPINIÃO
Bloco de Notas / Março
Por Paulo Borges
Papo de Aranha
No Brasil convencionou-se dizer que o ano só começa depois do carnaval. Incutiram na cabeça da população uma narrativa que não se sustenta quando temos milhares de brasileiros que trabalham todos os dias, de janeiro a janeiro. Esse papo furado que o ano só começa após a folia de Momo é de uma imbecilidade sem tamanho. Para o preguiçoso, o alienado o sujeito que se deixa levar por essas baboseiras é, normalmente, um pária da Nação.

Para os brasileiros que produzem as riquezas, que pagam seus impostos que ajudam a manter uma máquina gigantesca e inoperante – exceto para abastecerem camarilhas que se encastelam em cargos eletivos – carnaval é apenas uma pausa no meio do expediente de quem tem compromisso com o progresso e desenvolvimento do Brasil.
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Tragédia Anunciada
Todos os anos são noticiados desabamentos de casas, deslizamentos de encostas, alagamentos de vias, mortes e famílias desalojadas. No verão é mais comum, uma vez que é o período de chuvas intensas que acabam tendo como consequência grandes tragédias. É a consequência da inconsequência, em muitos casos.
É comum as prefeituras permitirem ou fazer vista grossa as ocupações e construções em áreas de risco. Muitas vezes é o político que incentiva essas práticas para, na sua ânsia de conquistar o voto, “ajudar” o seu eleitorado. Temos inúmeros casos em cidades capixabas em que essas práticas aconteceram ou, quem sabe, ainda acontecem. O político incentiva essas ocupações irregulares e a prefeitura de um prefeito “amigo” não fiscaliza. E, quando um fiscal dedicado notifica, acaba sofrendo retaliações.
Quando ocorre a tragédia todos arranjam justificativas, desculpas esfarrapadas para aparecerem bem à frente das câmeras de TV ou na foto dos jornais. Isso tem nome, além dos que sabemos: cinismo.
Qualquer semelhança é mera coincidência
Rememorando uma lenda em que um Rei nomeou um “burro” para seu assessor, algumas administrações costumam ter essa prática.
Conta a lenda que um Rei queria praticar o seu lazer predileto que era pescar. Consultou um assessor especialista e responsável para analisar a situação climática do reino. A informação era que o tempo seria apropriado para a pescaria real. Lá se foi o Rei, mas pegou chuva torrencial que lhe impediu a sua pescaria. Um burro, de orelha baixa, dava o sinal de que a chuva viria. A solução foi demitir o assessor e nomear o burro.
Rui Barbosa já dizia: “Há tantos burros mandando em homens inteligentes que chego a pensar se a burrice não seria uma ciência”.
Incentivo a “prática esportiva”
Para quem anda nas calçadas de alguns bairros de Vitória tem que estar atento para não pisar em fezes de cães. Assim como tem o dono do animal consciente da civilidade, tem também o dono que o consciente é apenas o animal. Nesse caso, a coleira está colocada no pescoço errado.

Mas vamos olhar pelo lado bom, até porque de um limão se faz uma limonada. Podemos treinar nossos atletas e circenses ao usarem as nossas calçadas. Pulam, saltam, se contorcem para desviarem das pelotas, pelotinhas e pelotões deixadas nas calçadas pelos cães e seus donos.
Esquecida
A pracinha em frente ao Tobayo (antigo Yahoo), em Jardim Camburi está necessitando de cuidados da municipalidade. Está com aspecto de área relaxada. Uma vassoura, desinfetante e detergente já seria um bom começo. A pracinha, que ninguém sabe o nome porque não existe nenhuma placa, descobriu-se se chamar Engenheiro Renato Loyola, está bem derrubadinha.
Pelada e gol de placa
Algum tempo atrás, narrei alguns jogos pela TV e, por isso, um amigo me convidou para participar de um evento de confraternização informal em um sítio, em que haveria churrasco e um jogo entre amigos, com a presença emblemática de um político, que havia sido notícia de jornal pelos ilícitos que praticara durante seu mandato.
Pois bem, lá fui narrar a pelada entre amigos e convidados, tudo na informalidade, depois de alguns copos de cerveja. Nessa hora aparecem os puxa-sacos, os assessores solicitando que falasse mais o nome do político, mesmo que não tocasse na bola ou chutasse de canela. Sem levar em consideração o lado profissional naquele momento, improvisei para ficar engraçada e divertida a narração. Lá pelas tantas o político fez um gol e lembrei-me do Galvão na Copa de 94, quando gritou “É tetra!!!” Por isso achei apropriado inventar o meu bordão para valorizar o gol do político corrupto. Gritei a plenos pulmões “É treta, é treta, é treta!!!”.
A consequência dessa minha criatividade foi o corte do som do microfone e me custou o “convite” para que voltasse mais cedo para casa, deixando o churrasco e a cervejinha estupidamente gelada para trás.
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Pode isso, Arnaldo?!
Calçadas Invadidas

Não é difícil, para quem circula por algumas ruas do bairro Jardim Camburi, se deparar com o estreitamento da calçada, numa clara invasão de uma área pública. Com isso o transeunte caminha com um pé na calçada e outro na via de tráfego de veículos.
Esse assunto demanda muita discussão que vão desde da esperteza de uns, falta de fiscalização de outras administrações e inobservância das delimitações do projeto do loteamento (no que ninguém acredita).
***
Nó cego
Observe na foto o emaranhado de fios em um dos postes da Rua Carlos Martins. Se for colocada uma moldura, vira um quadro como obra de arte de visão assustadora.
As cidades modernas e algumas nem tanto, não usam a rede elétrica aérea. Os cabos são colocados em galerias subterrâneas. Como não faz parte do planejamento de otimização e racionalidade de muitas administrações, fica esse emaranhado de fios nos postes, emoldurando um quadro que em muito parece a mente de alguns dos nossos entendidos oficiais em urbanismo.

Com tantos buracos em algumas vias do bairro, já é um bom começo…
***
Não Acrediiiiiito!!!
Existe uma praça no bairro de Jardim Camburi que seus frequentadores não sabem o nome, mas já escolheram um para dar àquele logradouro público. Escolheram o nome de um cidadão acima de qualquer suspeita, mas esbarraram em um problema. O dito cujo continua vivo. Já mandaram até confeccionar a placa, já tem até a fitinha para ser cortada por alguma autoridade constituída. Segundo alguns, existe um abaixo assinado com dezenas de assinaturas indicando o nome do homenageado a ser dado a praça, mas isso pode acontecer após ele ser ejetado para o plano espiritual.
“Ele é amigo, uma pessoa maravilhosa, mas não morre para que a gente possa homenageá-lo”, disse um também “amigo de fé” do querido homenageado, que continua vivo e a praça sem nome. Uma pena!
Outro amigo também lamenta o atraso indeterminado na homenagem:
“O problema é que ele está vivo, mas a gente tem esperança… Ele merece, é uma pessoa maravilhosa, mas não morre, insiste em que adiemos a homenagem”, disse um “amigo” do dito cujo. E acrescenta; “A gente quer homenageá-lo, mas ele não ajuda”, completou pesaroso.
Volta e meia um outro amigo pega uma escada para retirar a placa que está guardada sobre o telhado de uma banca de revista. Lustra, olha com ansiedade e a embala e guarda com muito zelo e o desejo de vê-la sendo colocada em destaque na praça. Se o amigo for catapultado para o além, bem entendido.
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Você Sabia?
Que a Páscoa é, no mundo ocidental, desde o início da Idade Média, celebrada pelos cristãos e, assim como várias das celebrações cristãs, possui vínculo com a tradição judaica. Ao longo dos séculos em à Europa foi cristianizada, muitos elementos de culturas pagãs também foram assimilados pela Igreja e conectados com seus rituais. Os símbolos banais, o coelho e os ovos, por exemplo, já eram símbolos presentes em culturas do Norte da Europa. A Páscoa, para o mundo cristão, marca a celebração da Ressurreição de Cristo e, geralmente, os símbolos que a ela estão associados remetem a essa ideia. Os ovos e o coelho faziam parte de antigos rituais germânicos e representavam divindades ligadas à ideia de fertilidade, como Ostara, deusa da primavera. Como a primavera é a estação do ano em que há uma espécie de “renascimento” da vegetação, após os invernos rigorosos da Europa, esses símbolos passaram a representar também a Ressurreição de Cristo.

Coelho: entre os germânicos, era o primeiro animal a sair da toca, após o inverno, e começar a reproduzir-se.
Ovos: esses, por sua vez, para os mesmos povos, eram pintados e ornamentados para serem entregues como presentes durante a primavera.”
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RESUMO
- Lula não quer o governo, quer o poder. Não tem nenhum planejamento para governar. Ele é um patinador e ama viajar pelo mundo falando coisas sem pé nem cabeça. Quer ser o que não o é, mas aqui todos sabem o que ele é.
- A população das cidades turísticas do litoral Norte paulista, atingidas pelas fortes chuvas que proporcionaram uma grande tragédia, chorando seus mortos e prejuízos, enquanto a ministra do Turismo e o presidente da Embratur se esbaldando no carnaval. A Janja tocando tambor e bebericando sua caipirinha não ia deixar tudo isso para organizar uma equipe para atender as famílias. Mesmo um apoio moral. Saudades da Michelle.
- Lula não tem projeto de governo. Foi sobrevoar a região da tragédia, fez discurso político, falou mal do governo anterior e foi embora. Fez política, até porque não sabe nada além disso…. Sabe fazer bem outra coisa…
- E falando em Lula, comparando com o Tarcísio de Freitas é covardia, basta ver a atuação de um e de outro diante das ações em relação a tragédia no litoral paulista. Lula sobrevoou a área, fez palanque e voltou par a folia. Tudo mídia.
- . Tem deputados que destinaram suas emendas para ajudar cidades que foram atingidas pelas chuvas no Espírito Santo. Será que prefeitos usaram esses recursos para promover o carnaval?
- . Tem ministro no governo que foi condenado em terceira instância a seis anos em regime fechado, mas conseguiu um Habeas Corpus que está engavetado a um ano com um ministro do STF.
- . Mais uma ação importante da Associação Comunitária de Jardim Camburi (Acjac). O Projeto EcoBike Recicla é um gol de placa!
- E por falar na atuação da Acjac, a ampliação da Unidade Básica de Saúde foi pauta de reivindicação da entidade na recente reunião das comunidades com o prefeito Pazolini e assessores.
OPINIÃO
Produtividade travada: fatores históricos que explicam o atraso do Brasil
A baixa produtividade do trabalhador brasileiro tem origem no modelo extrativista da economia que vem do colonialismo e, em muitos aspectos, permanece em vigor, mesmo tendo à frente governos liberais ou progressistas
Por Arthur Gebara Júnior*
A produtividade do trabalhador brasileiro é considerada baixa quando comparada à de países desenvolvidos e de algumas nações em desenvolvimento. O Brasil ocupa a 94ª posição no ranking global de produtividade da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ficando atrás até mesmo de vizinhos latino-americanos com graves dificuldades estruturais.
Na América Latina, por exemplo, o Brasil perde para o Uruguai, o Chile, a Argentina e Cuba – país que lida há décadas com um embargo econômico e fortes limitações sob um governo centralizado. No ranking global de produtividade por hora trabalhada, que avalia 184 países, o Brasil registra uma geração média de riqueza de US$ 21,2 por hora. No contexto regional, o Uruguai lidera com US$ 38, seguido por Chile (US$ 34,4), Argentina (US$ 33,8) e Cuba (US$ 22,6).
O indicador é calculado pela OIT ao dividir o Produto Interno Bruto (PIB) em dólares pelo total de horas trabalhadas da população ativa. Os líderes mundiais em produtividade são a Irlanda (US$ 164,7), Luxemburgo (US$ 159), Noruega (US$ 125,6) e Cingapura (US$ 100,4). Em relação aos Estados Unidos, onde o trabalhador gera US$ 81 por hora, o rendimento brasileiro representa apenas cerca de 26% da riqueza produzida por um americano.
A pesquisa da OIT (com dados do primeiro trimestre de 2026) também aborda a jornada semanal. O brasileiro trabalha, em média, 38,9 horas por semana, índice inferior ao de 97 países, incluindo nações como a China (46,1 horas), Índia (45,7 horas) e o México (42,2 horas). A possível aprovação da jornada 6×1, em andamento no Congresso Nacional, por exemplo, deve aumentar o custo para o empregador e para o consumidor, sem alterar a produtividade.
Mas, afinal, o que trava a produtividade? Por que o país permanece estagnado nesse patamar há décadas? Trata-se de uma questão complexa, na qual fatores históricos e estruturais exercem um papel decisivo.
Para ajudar a entender a baixa performance do trabalhador brasileiro, é possível recorrer ao chamado “mito da preguiça tropical”: ideias racistas e deterministas do século XIX, herdadas do período colonial, tentavam culpar o clima ou a etnia pelo atraso econômico. No entanto, a história econômica desmente esses mitos ao demonstrar a alta intensidade de esforço físico imposta aos trabalhadores sob regimes de exploração e escravidão.
Instituições determinantes
Daron Acemoglu é professor de economia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e James A. Robinson, professor de ciência política da Universidade de Chicago. Os dois receberam o Prêmio Nobel de Economia pelo conjunto de suas pesquisas acadêmicas fundamentais sobre como as instituições sociais e políticas afetam a prosperidade dos países, que servem de base para a tese apresentada na obra “Por que as Nações Fracassam”. Este livro destaca como as justificativas geográficas e culturais para decretar a riqueza ou a pobreza de um país não convencem. Os dois especialistas afirmam que o desenho de suas instituições é determinante.
Para uma análise mais precisa, eles classificaram os países em duas categorias. Os de economias inclusivas, que promovem a prosperidade ao garantir direitos de propriedade, incentivar a inovação e distribuir o poder político, com um resultado histórico que gera crescimento sustentável de longo prazo. Direitos amplos, garantia da propriedade privada com segurança jurídica e regulação clara também contribuem para a construção de um ambiente favorável aos investimentos, o que não tem ligação com fatores geográficos e culturais. A educação, a qualificação e o preparo do trabalhador afetam diretamente a sua produtividade.
Já as nações enquadradas como extrativistas concentram a riqueza nas mãos de poucas elites e barram o desenvolvimento. Embora a questão das instituições seja parte das regras do jogo, ela é também determinante para o desenvolvimento de um país. O modelo que os economistas classificam como extrativista não estimula o trabalhador, o que afeta de maneira decisiva a sua produtividade. Ele não tem incentivo para se educar ou investir na sua qualificação técnica, o que o impede de enxergar oportunidades, se preocupar em inovar ou empreender. Além disso, não existe a perspectiva e a garantia de que será recompensado e se apropriará dos resultados do seu esforço, já que o investimento produtivo é muito baixo, com falta de capital físico, o que compromete a produtividade.
O livro compara o sucesso de países como os Estados Unidos com a economia de nações da América Latina, África e Ásia, explicando como essas características institucionais e políticas são cruciais para o êxito ou o fracasso. No caso da América Latina, o modelo colonial de dominação e exploração gerou instituições extrativistas que concentram renda e travam a produtividade moderna.

E o Brasil?
O país ainda sofre com as sequelas desse modelo. O latifúndio colonial limitou o acesso à propriedade para a maioria da população, enquanto a escravidão prolongada atrasou a criação de um mercado consumidor livre e qualificado.
Marcel Solimeo, economista-chefe do Instituto de Economia Gastão Vidigal da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), alerta que a educação e, especialmente, a qualificação dos trabalhadores ainda não são efetivas. “Existem cursos de qualificação profissional em várias entidades empresariais, escolas e institutos de formação técnica, mas o problema vem da educação básica, ainda muito deficiente e que continua produzindo um grande número de analfabetos funcionais”, diz.
O economista afirma ainda que “a falta de cultura geral e o pouco interesse de alguns setores do empresariado pela educação e pelo investimento na qualificação do trabalhador agravam o problema.”
Determinismo histórico
Historicamente, a estrutura econômica brasileira priorizou a extração de recursos de baixo valor agregado para exportação. Esses fatores afetam diretamente a produtividade do trabalhador, que recebe menos e tem menor acesso à infraestrutura e à tecnologia de ponta.
Países dominados por dinâmicas extrativistas entram em ciclos de estagnação, pobreza e disputas pelo controle do Estado. Nesse contexto, fica claro que atribuir a baixa produtividade à cultura do povo desvia o foco dos problemas reais e das falhas dos sistemas econômicos, ignorando as profundas diferenças entre modelos inclusivos e exploradores.
Para Ulisses Ruiz de Gamboa, economista do Instituto de Economia Gastão Vidigal da ACSP e professor de História Econômica do Insper, trata-se de um problema crônico: “Ao longo de toda a sua história, o Brasil sofreu com essas instituições extrativistas que, infelizmente, se mantêm vivas, independentemente da linha ideológica dos sucessivos governos. Nem a ascensão de governos declaradamente progressistas foi capaz de promover mudanças“.
O professor acrescenta que, além do problema da baixa qualificação do trabalhador, o Estado muitas vezes protege interesses corporativos específicos em vez de garantir a livre concorrência, criando um ambiente de negócios que penaliza o empreendedorismo em massa, dificulta ganhos de eficiência e desincentiva os ganhos de produtividade do trabalhador.”
O mapa da baixa produtividade
A colonização estabeleceu bases estruturais que moldaram o destino econômico e social de continentes inteiros. A África teve fronteiras desenhadas arbitrariamente pelas potências europeias na Conferência de Berlim, o que fragmentou etnias, alimentou conflitos civis duradouros e estruturou economias baseadas na exportação de commodities primitivas.
A Ásia sofreu com a exploração comercial agressiva e a imposição de tratados desiguais, sendo que a desestruturação de impérios locais abriu caminho para instabilidades políticas prolongadas no século XX.
Na América Latina, o foco na extração de recursos e na monocultura para exportação deixou um legado de extrema desigualdade social, concentração de terras e dependência externa.
A Divergência Coreana
Em “Por que as Nações Fracassam”, os autores mostram o contraste entre as duas Coreias: a do Norte (comunista) e a do Sul (capitalista). O capítulo ilustra como as instituições e os modelos econômicos superam o determinismo geográfico.
A Coreia do Sul adotou o capitalismo de Estado, investiu massivamente em educação de base e promoveu indústrias voltadas à exportação – os chamados chaebols (conglomerados empresariais familiares) -, transformando-se em uma potência tecnológica global.
Por outro lado, a Coreia do Norte seguiu o modelo de economia planejada e fechada do sistema comunista (Juche), priorizando o setor militar e sofrendo com o isolamento internacional, a estagnação econômica e as crises de abastecimento.
A retomada de Singapura e da China
A ascensão do Sudeste Asiático e da China redefiniu o equilíbrio de poder econômico mundial por meio do pragmatismo estratégico. Singapura transformou-se de uma ilha portuária vulnerável e sem recursos naturais em um centro financeiro global, com um sucesso baseado em forte controle estatal, combate rigoroso à corrupção, abertura ao capital estrangeiro e foco absoluto em logística e educação.
A China recuperou-se de um século de submissão colonial, conflitos e graves convulsões internas. Sob o governo comunista a partir de 1949, passou por grandes dificuldades econômicas decorrentes das tentativas de Mao Tsetung – como o plano “O Grande Salto Adiante”. Foi com as reformas de abertura econômica iniciadas em 1978 que conseguiu combinar o controle político do Partido Comunista com zonas econômicas especiais de livre mercado, tornando-se uma potência militar e industrial e a segunda maior economia do mundo.
Defasagem
No Brasil, a imensa defasagem no ensino básico e técnico, que reduz a capacidade de inovação e a eficiência nas funções, representa um grande desafio. A infraestrutura insuficiente e pouco eficiente, associada ao chamado “Custo Brasil”, constitui outro fator determinante: logísticas precárias e transportes deficientes geram perdas diárias de tempo e recursos. A baixa incorporação de equipamentos modernos nas empresas também deprime o rendimento por hora trabalhada, ao passo que falhas na gestão de processos produtivos e a baixa valorização do capital humano prejudicam o desempenho geral.
Reformas
As reformas estruturais voltadas à produtividade no Brasil estão no radar dos especialistas. É cada vez mais urgente iniciar mudanças profundas capazes de retirar o país da armadilha da baixa produtividade e conduzi-lo a um modelo econômico inclusivo, o que exige a remoção de privilégios corporativistas e a valorização do potencial da força de trabalho. A produtividade do trabalhador brasileiro segue estagnada desde 1950, acumulando avanço de apenas 0,4% em 2025 e desaceleração contínua em 2026. Esse cenário reflete o peso do ecossistema estrutural e da burocracia, distanciando o país da média global de produtividade no trabalho.
Radiografia da Estagnação Produtiva
A eficiência do trabalho no Brasil patina em meio a desajustes setoriais e à reversão de ganhos pontuais do passado. Dados do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, gerido pelo FGV-IBRE, mostram que o salto temporário de produtividade registrado em 2020, devido à pandemia, foi totalmente revertido, retornando à trajetória de queda iniciada em 2017.
Após alta de 2,3% em 2023, impulsionada pela agropecuária, o indicador avançou apenas 0,1% em 2024 e fechou 2025 com alta modesta de 0,4%. O setor de serviços, que concentra a maior parte da mão de obra, mantém ganhos de produtividade próximos a zero, na casa de 0,2% ao ano.
Para a Virada Estrutural
A reversão desse quadro depende de reformas profundas, divididas em quatro frentes prioritárias:
– Consolidação e Simplificação Tributária: Fim do Custo Brasil, redução da burocracia fiscal e estímulo direto ao investimento produtivo em inovação, superando o planejamento tributário defensivo.
– Reforma Educacional e Técnica: Alinhamento curricular voltado para ciências, engenharia e ensino técnico, além de requalificação contínua de adultos frente à automação.
– Modernização Administrativa: Corte de privilégios e supersalários no funcionalismo, atrelando a máquina pública à meritocracia e à entrega de serviços eficientes.
– Abertura Comercial e Infraestrutura: Redução de barreiras tarifárias para elevar a competitividade externa e ampliação de concessões em portos, ferrovias e saneamento por meio de segurança jurídica.
Em um momento em que as atenções se voltam para as eleições de outubro, existe a expectativa de que surja um projeto inovador para a próxima gestão. Nesse sentido, refletir sobre a baixa produtividade do trabalhador brasileiro é fundamental para confrontar os resquícios de um passado extrativista que continua a limitar o desenvolvimento nacional.
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- Artigo publicado no Diário do Comércio – Conteúdo
- Foto destaque: Reprodução / Redes Sociais
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