Escândalo Nacional
Caso Master: Lula avalia futuro de Jaques Wagner após operação da PF
BRASIL
Aliados do presidente pressionam pela saída do parlamentar da liderança no Senado, para não aumentar o desgaste do Planalto. Chefe do Executivo e senador terão uma conversa na semana que vem
Por Alícia Bernardes, Fernanda Strickland e Renato Souza* | Brasília (DF)
A permanência do senador Jaques Wagner (PT-BA) na liderança do governo na Casa legislativa abriu um racha nos bastidores do Palácio do Planalto e expôs divergências dentro do PT. Embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantenha a postura de preservar o aliado histórico, integrantes do Executivo e dirigentes do partido passaram a defender reservadamente que o parlamentar deixe a função no Senado para evitar que o caso envolvendo a Operação Compliance Zero, sobre fraudes do Banco Master, contamine a imagem da gestão federal.
Lula deve conversar com Wagner, na próxima semana, para definir se o mantém na função. O senador foi alvo da nona fase da Compliance Zero, na quinta-feira. A PF aponta que o parlamentar teria recebido benefícios como um apartamento avaliado em R$ 2,4 milhões, ingressos para shows internacionais, voos em aeronaves privadas e pagamentos de R$ 3,5 milhões a empresas relacionadas ao seu núcleo familiar. Em contrapartida, teria atuado no Congresso pelos interesses do Master.
O chefe do Executivo esteve nessa sexta-feira em Belo Horizonte, e, num discurso de quase 30 minutos, não fez nenhuma referência, nem mesmo indireta, às denúncias envolvendo Wagner. Ele abordou temas variados, como violência contra a mulher, Seleção Brasileira, convocação de Neymar e investimentos federais na saúde, mas nada sobre o senador.
Ao se aproximar da área reservada à imprensa, Lula foi questionado sobre a permanência ou não de Wagner na liderança do governo no Senado. O presidente não respondeu, fez apenas um gesto de positivo com a mão.
Segundo interlocutores do governo, a avaliação é de que Lula tem resistência em afastar auxiliares próximos, sobretudo no caso de Wagner, considerado um dos principais conselheiros dele. Ainda assim, cresce a percepção de que a permanência do senador na liderança pode dificultar negociações no Congresso e transformar uma investigação individual em uma crise política de maiores proporções.
“O presidente não gosta de tomar decisões abruptas com pessoas em quem confia, mas existe a compreensão de que o desgaste pode atingir o governo”, afirmou à reportagem um integrante da base governista.
A expectativa de aliados é que a iniciativa de deixar o cargo seja do próprio senador. Nos bastidores do PT, dirigentes e parlamentares afirmam que o governo precisa impedir que a oposição associe o Palácio do Planalto às suspeitas investigadas pela Polícia Federal.
A entrevista concedida por Wagner à TV Bandeirantes da Bahia, na qual afirmou ter recebido solidariedade de Lula e descartou deixar o cargo, desagradou parte da cúpula petista. Integrantes da legenda avaliaram que a manifestação acabou aumentando a pressão sobre o governo e dificultando a construção de uma saída negociada. “A entrevista foi interpretada como uma antecipação de uma decisão que ainda está sendo discutida internamente”, disse uma fonte da legenda.
Insatisfação
A insatisfação deixou de ser restrita às conversas reservadas quando o deputado Rogério Correia (PT-MG), vice-líder do governo na Câmara, defendeu publicamente o afastamento do senador da liderança. Embora integrantes da base ressaltem que a investigação ainda está em curso e que Wagner tem direito à ampla defesa, há uma preocupação crescente de que a crise prejudique a tramitação de matérias prioritárias do Executivo no segundo semestre. “Ninguém está fazendo julgamento prévio, mas é preciso preservar a capacidade política do governo”, afirmou um parlamentar governista.
Existe uma avaliação interna de que as explicações apresentadas pelo senador foram “sofríveis”, especialmente em relação à compra de um apartamento em Salvador. Na entrevista de quinta-feira, o líder do governo afirmou que pediu ajuda ao empresário Augusto Lima para adquirir o imóvel destinado à filha enquanto o prédio ainda estava em construção e que, posteriormente, faria a recompra do imóvel. “Eu teria que vender o apartamento da minha filha para poder complementar e pagar o apartamento, ou ela financiar. Então, não tem nenhuma transferência de patrimônio para mim”, sustentou. Lima, ex-sócio do dono do Master, Daniel Vorcaro, também foi alvo da PF na quinta-feira.
Durante a operação em endereços de Wagner, agentes encontraram US$ 66 mil e 39 mil euros. A suspeita é de que o senador recebeu pagamentos relacionados ao banco de Daniel Vorcaro por meio de uma empresa ligada à esposa do enteado, além de um apartamento em Salvador. Wagner alegou que o dinheiro provém de diárias pagas pelo Senado quando ele fez viagens internacionais.
O cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), ressalta o fato de que o episódio será explorado politicamente por adversários do presidente Lula.
Segundo ele, a presença de um líder do governo no centro de uma investigação cria uma oportunidade para a oposição retomar associações entre o PT e antigos escândalos, como o mensalão e a Lava-Jato.
Medeiros afirma que o principal risco para Lula, neste momento, não seria uma queda imediata nas pesquisas, mas uma interrupção de uma trajetória de crescimento. Ele também destaca que, caso a crise avance e alcance outros nomes ligados ao PT da Bahia, o impacto pode atingir uma região considerada estratégica para o partido.
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- Correio Braziliense – Conteúdo / Colaborou Alessandra Mello
- Foto destaque: Crédito – Alexandre Guzanhe / EM / D.A Press
BRASIL
Delegados da PF pedem que Gonet se declare impedido para apurar relatório
A Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) quer que Gonet se retire de investigações com citações ao Procurador Geral da República
Por Manuela de Moura e Luana Patriolino* | Brasília (F)
A ADPF pediu neste sábado (5) que o procurador geral da República, Paulo Gonet, se declare impedido de atuar na apuração sobre a elaboração de um relatório da Polícia Federal (PF) relacionado à Operação Compliance Zero.
A ADPF argumenta que Gonet deveria se declarar impedido porque seu nome aparece no próprio relatório que está sendo analisado pela PGR. A entidade cita o artigo 258 do Código de Processo Penal, que estende aos integrantes do Ministério Público as regras de impedimento e suspeição aplicadas aos juízes.
“Independentemente de qualquer juízo sobre intenções, que a ADPF não formula, o efeito objetivo da medida é intimidatório sobre os investigadores”, afirmou a associação.
A entidade também questionou o fato de a apuração ter como alvo os policiais responsáveis pela elaboração do documento, e não a decisão judicial que determinou sua produção.
Para a ADPF, responsabilizar os executores por cumprir uma ordem judicial transfere aos investigadores uma controvérsia que, na avaliação da associação, deve ser discutida no próprio STF.
“Se a Procuradoria-Geral da República entende que a decisão determinante do relatório é irregular ou que deveria ter sido previamente comunicada, a via própria é o processo perante o Supremo Tribunal Federal”, afirmou a associação.
Relatório da Policia Federal
– A controvérsia envolve um relatório produzido pela PF a pedido do ministro André Mendonça, do STF
– O documento reuniu informações sobre mensagens e contatos do banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, com autoridades, entre elas o ministro Alexandre de Moares e o próprio Paulo Gonet.
– Após retirar o sigilo do relatório, Mendonça determinou que os elementos apresentados fossem analisados e solicitou manifestação da PGR.
– Na sequência, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, passou a conduzir os procedimentos relacionados ao caso e pediu esclarecimentos à Procuradoria sobre a elaboração do documento.
– A PGR informou a Fachin que abriu o Procedimento de Controle Externo da Atividade Policial para apurar se houve eventual ordem ou interferência externa que pudesse ter comprometido o conteúdo do relatório.
– Segundo a Procuradoria, o Ministério Público não foi comunicado sobre a determinação para a produção do material.
– A PGR sustenta que a ausência de comunicação impediu o exercício do controle externo da atividade policial durante a elaboração do documento.
– Além do impedimento de Gonet, a associação pediu o arquivamento do procedimento instaurado pela PGR, sob o argumento de que o instrumento seria inadequado para questionar uma decisão do STF.
A entidade também defendeu que os fatos revelados pela Operação Compliance Zero sejam investigados “em toda a sua extensão”, sem seletividade em relação às autoridades envolvidas.
A ADPF afirmou ainda que prestará assistência aos delegados e servidores eventualmente alcançados por procedimentos instaurados nas circunstâncias questionadas.
“Assegurar que ninguém seja responsabilizado por cumprir ordem judicial não é defesa corporativa: é defesa da capacidade do Estado brasileiro de investigar sem receio de retaliação”, declarou a entidade.
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- Matéria do Metrópoles – Conteúdo
- Foto destaque: Crédito – Breno Esaki / Metrópolis
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