Reunião do Brics
Em declaração final do Brics, críticas amenas a temas urgentes
Política Internacional
Documento dos líderes abordou questões relacionadas à governança global, conflitos, comércio e meio ambiente, mas poupou menções à ação dos Estados Unidos e de Israel. Por outro lado, presidente Lula teceu críticas a guerras
Por Fernanda Strickland* – Rio de Janeiro/RJ
A declaração final dos líderes do Brics, divulgada ontem, fez uma defesa ao multilateralismo e à reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU). Os integrantes do bloco citaram preocupação com o conflito envolvendo o Irã e as questões relacionadas ao meio ambiente, mas adotaram um tom mais ameno sobre as guerras e o “tarifaço” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O consenso ocorreu após reunião da Cúpula. Ao longo de 126 parágrafos, os membros condenaram, em carta, os recentes ataques ao Irã, sem citar nominalmente os EUA e Israel. O grupo também reforçou a necessidade de uma solução de longo prazo para a situação na Palestina. “Reiteramos nossa profunda preocupação com a situação no Território Palestino Ocupado, diante da retomada de ataques contínuos de Israel contra Gaza e da obstrução à entrada de ajuda humanitária no território”, diz o documento.
O Brics também criticou as medidas protecionistas unilaterais, punitivas e discriminatórias. Sem menção direta a Trump, mas em referência ao presidente americano, a declaração final cita sobre “aumento de medidas tarifárias e não tarifárias unilaterais”.
“Nesse contexto, reiteramos nosso apoio a um sistema multilateral de comércio baseado em regras, aberto, transparente, justo, inclusivo, equitativo, não discriminatório e consensual, com a OMC em seu núcleo, com tratamento especial e diferenciado (TED) para seus membros em desenvolvimento”, diz.
O bloco ressaltou a importância da cooperação do sul global, como motor de mudanças positivas, especialmente diante de significativos desafios internacionais.
“Acreditamos que os países do Brics continuam a desempenhar um papel central na expressão das preocupações e prioridades, assim como na promoção de uma ordem internacional mais justa, sustentável, inclusiva, representativa e estável, com base no direito internacional”.
Essa é a primeira cúpula realizada com a nova configuração do Brics, que passou a incluir Egito, Etiópia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Indonésia, ao lado dos membros fundadores — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. A expansão foi acompanhada de um aumento no peso diplomático do bloco, que tem buscado se consolidar como a principal voz do Sul Global.
A articulação para a declaração conjunta exigiu contornar resistências internas e equilibrar as diferentes agendas nacionais. Ainda assim, os países conseguiram um consenso que reforça o papel do Brics como defensor do multilateralismo e crítico das assimetrias do sistema internacional atual.
A ausência dos presidentes Vladimir Putin, da Rússia, e Xi Jinping, da China, marcou a cúpula sediada no Rio de Janeiro sob a presidência brasileira. Putin foi representado por chanceleres e enviados especiais, em razão do mandado de prisão emitido contra ele pelo Tribunal Penal Internacional. Já Xi Jinping optou por não comparecer, em um gesto que analistas interpretam como parte da estratégia chinesa de manter distância tática, enquanto amplia críticas às ações norte-americanas no cenário global.
Defesa da paz
Em discurso realizado ontem, durante a sessão “Paz e Segurança, Reforma da Governança Global” da Cúpula do Brics, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um alerta sobre o colapso do multilateralismo e a paralisia das instituições internacionais diante da escalada de conflitos armados.
O chefe do Planalto defendeu que o bloco assuma o papel de liderança na construção de uma nova ordem internacional baseada na paz, no respeito ao direito internacional e na democratização dos organismos globais. “De todas as cúpulas do Brics que o Brasil sediou, esta ocorre no cenário global mais adverso”, afirmou.
O presidente destacou a perda de credibilidade da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Conselho de Segurança, que, segundo ele, “sequer é consultado antes de ações bélicas”. Ao mencionar os 80 anos da criação das Nações Unidas, o petista lamentou que os princípios fundadores da organização tenham sido esvaziados por intervenções unilaterais, corridas armamentistas e o uso político de organismos multilaterais.
Lula citou como exemplos os fracassos internacionais no Iraque, Afeganistão, Líbia e Síria, classificando as consequências como “desastrosas”, especialmente para o Oriente Médio, o norte da África e o Sahel. “No vazio dessas crises não solucionadas, o terrorismo encontrou terreno fértil”, disse.
Críticas
O presidente Lula criticou a recente decisão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de estimular que países-membros destinem 5% de seus PIBs a gastos militares, em contraste com a meta de apenas 0,7% para ajuda oficial ao desenvolvimento. “É sempre mais fácil investir na guerra do que na paz”, afirmou.
Na avaliação dele, o descompasso comprova que os recursos para enfrentar desafios como a pobreza, as mudanças climáticas e as pandemias existem, mas ainda não há vontade da maioria dos políticos. O brasileiro renovou a proposta de reforma profunda no Conselho de Segurança da ONU, defendendo a inclusão de novos membros permanentes da América Latina, da África e da Ásia. “É mais do que uma questão de justiça. É garantir a própria sobrevivência da ONU”, declarou.
Também foi mencionada a importância do Brasil em outras crises internacionais, como a do Haiti. Lula também destacou a diversidade e representatividade do Brics, agora, com 11 países integrantes, que conferem ao bloco legitimidade para impulsionar transformações.
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* Correio Braziliense – Conteúdo
* Foto/Destaque: Crédito: Ricardo Stuckert / PR
Política Internacional
Irã confirma acordo com EUA, mas exige pagamento de pedágio em Ormuz
Trump e mediador paquistanês apresentaram informações contraditórias sobre o teor do texto que trata do fim da guerra
Estados Unidos e Irã alcançaram um acordo neste domingo (14) para estabelecer o fim imediato da guerra no Oriente Médio, incluindo o conflito no Líbano, e pretendem assinar o texto na sexta-feira (19), em Genebra. O país persa adicionou uma cláusula sobre o pagamento de pedágio marítimo no Estreito de Ormuz.
O teor do acordo não foi divulgado, mas o Irã indicou que as negociações devem começar em, no máximo, 60 dias, com o objetivo de alcançar um acordo definitivo em questões delicadas como o programa nuclear ou as sanções contra sua economia.
O compromisso foi anunciado pelo primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, mediador do conflito, que o qualificou de “passo histórico em direção à paz”. Posteriormente, Washington e Teerã confirmaram a informação.
“O acordo com a República Islâmica do Irã já está concluído. Parabéns a todos!”, escreveu Trump em sua plataforma Truth Social. “Autorizo plenamente a abertura sem cobrança de pedágio do Estreito de Ormuz e, simultaneamente, autorizo a suspensão imediata do bloqueio naval dos Estados Unidos. Navios do mundo, liguem seus motores. Que o petróleo flua!”, completou.
Pouco depois, ele afirmou que a passagem marítima só será reaberta após a assinatura do acordo na sexta-feira.
A agência iraniana Fars, no entanto, afirmou que o Irã incluiu, no último momento, uma cláusula sobre o pagamento de um pedágio marítimo no Estreito de Ormuz.
“Nos momentos finais da negociação, o texto do memorando de entendimento recebeu uma emenda para enfatizar de forma clara e explícita a questão da soberania do Irã e de Omã sobre o Estreito de Ormuz”, por onde transitam o gás e o petróleo exportados do Golfo, indicou a agência Fars, que citou uma fonte anônima que acompanha as negociações.
“O uso do termo ‘serviços marítimos’ significa que os Estados Unidos aceitaram o pagamento de pedágios ao Irã”, acrescentou a agência iraniana.
O fechamento de Ormuz teve um grande impacto na economia mundial, provocando inflação em alguns países e problemas de abastecimento de fertilizantes necessários para a produção de alimentos, entre outros.
Segundo o vice-ministro iraniano das Relações Exteriores, Kazem Gharibabadi, o acordo com Washington põe “fim imediato à guerra”.
Uma fonte diplomática próxima às conversações indicou que Estados Unidos e Irã devem manter negociações indiretas durante a semana no Catar, antes da assinatura do acordo na sexta-feira.
Moratória nuclear
O conteúdo do acordo, alcançado após semanas de negociações tensas e ameaças frequentes de Trump de novas hostilidades, não foi divulgado publicamente.
As partes publicaram informações contraditórias sobre o teor. Trump afirmou ao jornal The New York Times que o Irã aceitou uma moratória de 20 anos sobre o enriquecimento de urânio.
Por sua vez, Gharibabadi declarou que as próximas conversações abordarão o fim das sanções contra o Irã, a questão nuclear, a reconstrução e o desenvolvimento econômico de seu país e a implementação de um mecanismo de supervisão dos acordos alcançados.
Israel reagiu e anunciou que seu Exército “permanecerá nas zonas de segurança no Líbano, na Síria e em Gaza por um período ilimitado”, segundo as palavras do ministro da Defesa, Israel Katz.
O acordo foi recebido com alívio pela comunidade internacional. O secretário-geral da ONU, António Guterres, disse esperar “que as partes aproveitem o novo impulso e redobrem seus esforços em direção a uma resolução final do conflito”.
Reino Unido, França, Alemanha e Itália celebraram o acordo e afirmaram que estão dispostos a suspender algumas sanções contra o Irã. Egito e Arábia Saudita também elogiaram o pacto.
Petróleo a US$ 80
O conflito começou em 28 de fevereiro com os bombardeios de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã, que respondeu atacando alvos americanos nos países do Golfo aliados de Washington.
Em 2 de março, o Líbano entrou na guerra devido aos ataques do Hezbollah contra Israel, que respondeu com uma ofensiva para “eliminar” o movimento xiita apoiado por Teerã. Os bombardeios israelenses provocaram mais de 3.700 mortes desde março, segundo o governo libanês.
Uma fonte oficial libanesa disse nesta segunda-feira (15) à reportagem que o governo de Beirute “não foi informado” sobre o acordo, nem sobre o momento em que entrará em vigor.
O acordo impulsionou as Bolsas e derrubou os preços do petróleo.
“O que poderemos fazer é reduzir o custo da energia, não apenas agora, mas a longo prazo, e criar um verdadeiro motor de prosperidade no Oriente Médio”, disse o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, ao canal Fox News.
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- Matéria da agência AFP – Conteúdo
- Foto destaque: Bandeira do Irã / Crédito: Heinz Peter Bader
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