Cidade / Memória
A rua mais estreita do Rio de Janeiro foi frequentada por Machado de Assis e é cheia de outras histórias curiosas
Curiosidade & Conhecimento
O Beco das Cancelas tem 3 metros de largura e 28 de extensão. Hoje em dia dá para passar tranquilo. Antigamente havia uma cancela para impedir que pessoas passassem à noite. Daí vem o nome
Por Felipe Lucena*
Ligando a Rua do Rosário à Bueno Aires, no Centro do Rio, fica o Beco das Cancelas. Muita coisa aconteceu na considerada rua mais estreita da cidade. Algumas delas, vocês vão conhecer agora.

Foto: Denis Gahyva
Vale uma ressalva. Sabemos que em muitas comunidades, favelas e vilas do Rio existem ruas tão ou mais estreitas que essa. Essa avaliação é entre as vias “oficiais” da cidade.
Para começo de conversa, vamos falar de tamanho. O Beco tem 3 metros de largura e 28 de extensão. Hoje em dia dá para passar tranquilo. Antigamente havia uma cancela para impedir que pessoas passassem à noite. Daí vem o nome.
O Beco é do século XVIII, período colonial. E nem sempre foi tão estreito. As construções ao redor foram impondo essa condição à rua.
No local (antes de ficar tão estreito) funcionou o Café Cascata. O estabelecimento era muito popular e frequentado pelo escritor Machado de Assis.
“O prédio [do Café Cascata] desabou em 1897, mas foi logo reerguido. Outro café famoso do local foi o Amorim, frequentado por banqueiros, tabeliães e comendadores e dono da fama de ‘um dos melhores cafezinhos da cidade’”, escreveu o pesquisador Leo Ladeira no portal Olhos de Ver.

Foto: Wikipédia
O Café Cascata foi o primeiro do Rio de Janeiro a ter garçonetes trabalhando. No beco também funcionou a uisqueria Bico Doce.
O Beco das Cancelas foi tombado em 2008 pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH). Mesmo que estreito, muita história passou por lá.
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* Fonte: Diário do Rio / O autor é jornalista, roteirista, redator, escritor, cronista.
* Foto / Destaque: Alexandre Siqueira
Curiosidade & Conhecimento
Fazenda ‘rara’ do subúrbio do Rio segue abandonada após promessa de revitalização do Governo Federal
Por Victor Serra* | Rio de Janeiro (RJ)
Mais de um ano após ser incluída entre os 14 bens culturais fluminenses contemplados pelo Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), a histórica Fazenda Capão do Bispo, no Cachambi, Zona Norte do Rio, permanece sem qualquer intervenção de restauro. Enquanto as obras não saem do papel, o casarão do fim do século XVIII segue sendo alvo de invasões, vandalismo e furtos. Segundo apuração da reportagem, o programa destinou R$ 440 mil para a elaboração do projeto de restauração do imóvel.
Na época do anúncio, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) informou ao DDR que o imóvel seria transformado
Patrimônio em deterioração

Sem vigilância permanente e praticamente abandonado, o casarão vem sofrendo com a retirada de portas, janelas e outros elementos arquitetônicos, além da ocupação irregular por pessoas em situação de rua. Recentemente, preservacionistas denunciaram a realização de fogueiras no interior da construção, aumentando o risco de incêndio em um imóvel tombado.
Para o ativista Marconi Andrade, da página SOS Patrimônio, a situação é crítica e coloca em risco um dos imóveis históricos mais importantes da cidade. “A Fazenda Capão do Bispo é um patrimônio fundamental para a história do Rio de Janeiro e do Brasil. Foi um dos primeiros locais de cultivo de cana-de-açúcar e, mais tarde, recebeu uma das primeiras mudas de café plantadas no país. Hoje, infelizmente, a casa está completamente aberta, sem segurança e sem manutenção. Portas e janelas estão sendo roubadas, há pessoas morando no imóvel e existe um risco real de incêndio ou até mesmo de desabamento”.

Marconi afirma que grupos ligados à preservação do patrimônio precisaram se mobilizar. “Existe um risco real de incêndio e até de desabamento. Há pessoas utilizando o imóvel de forma irregular, enquanto o patrimônio permanece completamente vulnerável”.
Há cerca de quatro anos, o Ministério Público ajuizou uma ação civil pública pedindo medidas para garantir a recuperação do imóvel. O processo, no entanto, não produziu os efeitos esperados.
Uma fazenda que ajudou a contar a história do Brasil
A Casa do Capão é considerada um símbolo da arquitetura vernacular brasileira, e integra o Projeto Circuito de Fazendas Históricas do Rio de Janeiro. Em 1759, a fazenda foi confiscada dos jesuítas e incorporada à Coroa. Dois anos depois, começou a ser leiloada. Um dos compradores foi o bispo D. José Joaquim Justiniano Mascarenhas de Castelo Branco, que construiu a casa-grande em um capão — porção de mata isolada sobre um outeiro de cerca de 20 metros de altura — origem do nome da propriedade. Durante séculos, a fazenda manteve atividades agrícolas.
Do ponto de vista arquitetônico, o casarão é uma das raríssimas casas de engenho preservadas na cidade do Rio. Conserva características típicas das edificações rurais setecentistas da Baía de Guanabara, como o pátio central e a varanda sustentada por colunas toscanas de alvenaria. Especialistas costumam comparar sua relevância apenas à da Fazenda do Colubandê, em São Gonçalo.
O imóvel foi tombado pelo Iphan ainda na primeira metade do século XX.
O que diz o Iphan
Procurado pelo DIÁRIO DO RIO, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional informou que aguarda o envio do projeto executivo de restauração pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), responsável pela condução do processo. Segundo o órgão federal, cabe ao Iphan apenas analisar e aprovar o projeto, descentralizar os recursos do Novo PAC e fiscalizar a execução das obras.
Sobre as invasões e o vandalismo registrados no imóvel, o instituto ressaltou que a manutenção dos bens tombados é responsabilidade de seus proprietários. O órgão informou ainda que, após vistoria técnica, encaminhou ofícios à Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa (Secec), alertando para o descumprimento de medidas emergenciais e solicitando providências imediatas.
Entre os problemas apontados estão a falta de limpeza do terreno, o acúmulo de lixo e dejetos, a ausência de capina, o avanço da vegetação e a inexistência de vigilância efetiva no local.
- Matéria do Diário do Rio – Conteúdo
- Foto destaque: Reprodução / Iphan
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