História e Conhecimento
Tiradentes: quem foi e por que é herói nacional
Conhecendo a História
Essa figura da Inconfidência Mineira só ganhou importância quase 100 anos após sua morte
Por Penelope Nogueira*
Nesta terça-feira (21), o Brasil celebra o feriado de Tiradentes. A data, mais do que um simples dia de descanso, marca a memória de uma das figuras mais simbólicas da história nacional. Mas afinal, quem foi Tiradentes e por que ele ocupa um lugar tão central no imaginário brasileiro?
De homem comum a personagem histórico
Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes, nasceu em 1746, na então Capitania de Minas Gerais, região que vivia o auge, e também o início do declínio, da exploração do ouro no Brasil colonial.
De origem modesta e órfão ainda jovem, exerceu diversas atividades ao longo da vida: foi tropeiro, minerador, dentista prático e militar. O apelido “Tiradentes” veio justamente de sua atuação como uma espécie de dentista informal, prática comum na época.
Sua experiência circulando entre Minas Gerais e o Rio de Janeiro o colocou em contato direto com a realidade da colônia, marcada por altos impostos cobrados pela Coroa Portuguesa, como o “quinto”, e medidas impopulares como a “derrama”, que previa a cobrança forçada de tributos atrasados.
A Inconfidência Mineira e o ideal de independência
No final do século XVIII, esse cenário de insatisfação levou à articulação da chamada Inconfidência Mineira, um movimento organizado principalmente por membros da elite local, inspirados por ideias iluministas e por experiências como a independência dos Estados Unidos.

Inconfidência Mineira | Reprodução
O objetivo era romper com Portugal e instaurar uma república independente em Minas Gerais. Tiradentes teve um papel de destaque dentro do grupo: ao contrário de outros inconfidentes mais ligados à elite intelectual, ele atuava como divulgador das ideias revolucionárias, circulando entre diferentes camadas da sociedade.
Apesar do planejamento, o movimento foi denunciado antes de se concretizar. A delação partiu de Joaquim Silvério dos Reis, que buscava perdão de dívidas junto à Coroa Portuguesa.
Julgamento, execução e o exemplo da punição
Preso em 1789, Tiradentes foi julgado junto a outros envolvidos em um processo que durou cerca de três anos. Durante os interrogatórios, assumiu grande parte da responsabilidade pelo movimento.
Em 1792, a sentença foi definida: enquanto outros conspiradores tiveram suas penas comutadas, Tiradentes foi o único condenado à morte. A execução ocorreu em 21 de abril, no Rio de Janeiro.
O castigo foi exemplar e extremamente violento. Após ser enforcado, seu corpo foi esquartejado e exposto em diferentes pontos do caminho entre Rio e Minas Gerais. A intenção da Coroa era clara: intimidar qualquer nova tentativa de rebelião.
O esquecimento e a construção do herói
Curiosamente, após sua morte, Tiradentes não foi imediatamente reconhecido como herói. Durante o período do Império, sua imagem permaneceu marginalizada.
Foi apenas com a Proclamação da República, em 1889, que sua figura ganhou destaque. O novo regime precisava de símbolos nacionais que ajudassem a construir uma identidade republicana, e Tiradentes se encaixava perfeitamente nesse papel.
O positivismo teve papel central nessa reinterpretação. Intelectuais e políticos ligados a essa corrente construíram a imagem de Tiradentes que conhecemos hoje: a de um mártir brasileiro, altruísta e devoto à pátria, quase como Jesus Cristo.
Sua história foi resgatada e reinterpretada: de condenado pela Coroa, passou a ser visto como mártir da liberdade. Em 1890, o dia 21 de abril foi oficializado como feriado nacional.
A imagem que o Brasil aprendeu a reconhecer

Sem registros visuais precisos de sua aparência, Tiradentes foi representado ao longo do tempo de maneira idealizada. A imagem mais difundida, com barba longa e traços semelhantes aos de Jesus Cristo, foi construída já no período republicano.
Essa representação ajudou a reforçar a ideia de sacrifício e redenção, aproximando sua figura de símbolos religiosos familiares à população brasileira.
Artistas como Pedro Américo também contribuíram para consolidar essa imagem, especialmente com obras que retratam o martírio de forma dramática e simbólica.
Por que Tiradentes é importante até hoje

Tiradentes se tornou um símbolo. Sua trajetória reflete a luta contra o domínio colonial e o processo de construção da identidade nacional brasileira.
A importância de Tiradentes vai além de sua participação na Inconfidência Mineira, reflete muito mais no período político que interpreta e conta a história. Ele representa como a história pode transformar personagens reais em símbolos nacionais, adaptando suas narrativas às necessidades de cada época.
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- Publicação Fórum – Conteúdo
- Foto Destaque: Reprodução / Internet
Conhecendo a História
Peixe pré-histórico que viveu há mais de 250 milhões de anos foi encontrado com ajuda de pesquisadores do Rio
Nova espécie, que sobreviveu por pouco ao impacto do meteorito que causou a maior extinção em massa da história do planeta, revela detalhes de um ecossistema de 254 milhões de anos
Por Felipe Lucena* | Rio de Janeiro (RJ)
Uma nova espécie de peixe pré-histórico, que viveu há cerca de 254 milhões de anos, pouco antes da maior extinção em massa da história do planeta, acaba de ser apresentada em um estudo científico com participação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
O fóssil, encontrado no município de Alto Garças, em Mato Grosso, está excepcionalmente preservado e oferece uma rara oportunidade de conhecer a vida existente no continente sul-americano nos momentos que antecederam uma das maiores transformações da história da Terra.
Os professores Valéria Gallo e Francisco J. de Figueiredo, do Departamento de Zoologia da Uerj, participaram da descrição científica do animal, incluindo investigação, análise morfológica, descrição e validação do estudo. A nova espécie foi batizada de Leolepis matogrossensis e representa um achado raro em escala mundial entre os peixes continentais do Permiano Superior.
A nova espécie pertence ao grupo dos peixes de nadadeiras raiadas (actinopterígios) que reúne cerca de 96% dos peixes vertebrados atualmente existentes, incluindo espécies como atum, salmão e bacalhau. O animal tinha aproximadamente 15 centímetros de comprimento e apresentava uma característica marcante: seu corpo era protegido por escamas resistentes formadas por dentina e esmalte, os mesmos materiais encontrados nos dentes humanos.
O grau de preservação torna o achado especialmente relevante. Enquanto grande parte dos peixes dessa idade encontrados no Brasil é conhecida apenas por dentes, escamas ou fragmentos ósseos isolados, o exemplar de Leolepis conserva praticamente todo o corpo. O estudo o classifica como o peixe de nadadeiras raiadas do Permiano mais bem preservado já encontrado no estado de Mato Grosso, além de representar um achado raro em escala mundial.
Um retrato da vida antes da maior extinção do planeta
O peixe viveu durante o Permiano Superior, em um grande sistema aquático continental formado a partir de um antigo mar interior existente quando a América do Sul e a África ainda estavam unidas no supercontinente Gondwana.
Pelo tamanho reduzido dos dentes, os pesquisadores estimam que Leolepis se alimentava de pequenos invertebrados e plantas. O fóssil, portanto, ajuda a reconstruir parte de um ecossistema que existia pouco antes da chamada extinção Permo-Triássica, ocorrida há aproximadamente 252 milhões de anos. O evento foi o maior episódio de extinção em massa conhecido pela ciência: cerca de 78% da vida terrestre e até 95% das espécies marinhas desapareceram.
Um peixe que viveu perto de uma cratera de asteroide
Há ainda uma coincidência geológica que torna a descoberta particularmente interessante: o fóssil foi encontrado a apenas 50 quilômetros da cratera de impacto de Araguainha, considerada a maior e mais bem preservada estrutura desse tipo na América do Sul.
Formada pelo impacto de um asteroide estimado em 2 a 3 quilômetros de diâmetro, a estrutura possui aproximadamente 40 quilômetros de diâmetro. O impacto ocorreu em período próximo ao final do Permiano, quando Leolepis ainda fazia parte daquele ecossistema.
O evento de Araguainha pode ter causado efeitos ambientais regionais importantes, embora as evidências disponíveis não permitam apontá-lo como a principal causa da extinção em massa do final do Permiano.
Uma nova espécie para entender a evolução dos peixes
Além de registrar uma espécie até então desconhecida, a pesquisa contribui para ampliar o conhecimento sobre a evolução dos actinopterígios, grupo extremamente diverso que domina a fauna de peixes atual. O resultado ajuda a compreender a diversidade, a distribuição geográfica e a evolução desses peixes durante o Permiano.
A descoberta também é importante porque o registro de peixes continentais do Paleozoico na América do Sul ainda é considerado pouco conhecido. A pesquisadora Valéria Gallo, envolvida na descrição do fóssil, afirma que “por estar excepcionalmente preservado, o exemplar pode ajudar os pesquisadores a reconhecer a presença da espécie em outras áreas da Bacia do Paraná e a estabelecer novas correlações entre diferentes formações geológicas”.
O espécime foi coletado em 2005 pelo geólogo Léo Adriano de Oliveira, que posteriormente o disponibilizou para estudo e o depositou na Coleção Paleontológica da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá. O nome Leolepis é uma homenagem ao geólogo, enquanto matogrossensis faz referência ao estado brasileiro onde o fóssil foi encontrado.
Para os pesquisadores, a descoberta também indica que ainda podem existir outros fósseis importantes a serem encontrados não apenas no Brasil, mas em diferentes regiões da América do Sul.
Pesquisa reúne instituições brasileiras e internacionais
O estudo foi realizado por uma equipe formada por pesquisadores vinculados à Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Natural History Museum, de Londres, e Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), entre outras colaborações internacionais.
Participaram da pesquisa Martha Richter, do Natural History Museum; Francisco J. de Figueiredo e Valéria Gallo, da Uerj; Raoul J. Mutter, pesquisador associado à área de paleontologia; Gerson Souza Saes, da UFMT, e Dharani Sundaran. A análise contou ainda com dados comparativos fornecidos pela pesquisadora Sam Giles, da University of Birmingham.
O fóssil permanece depositado na Coleção Paleontológica da Universidade Federal de O fóssil permanece depositado na Coleção Paleontológica da Universidade Federal de Mato Grosso, sob o registro UFMT-353 a,b.
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- Matéria do Diário do Rio – Conteúdo
- Foto destaque: Divulgação
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